14 de março de 2026

Pela eternidade ou por você eu venderia minha alma

 


[N.A.] Você é meu elo infinito com o infinito.



Foi quando pela primeira vez tive entre as minhas as suas mãos. Percebi: o tempo é implacável. Foi quando beijei sua pele. Pelo êxtase, senti: o viço é passageiro. Foi quando acariciei suas coxas e meu toque te levou àquele torpor incalculado: esses calos não estavam aqui antes. Fora do script, um roteiro que não vi entregarem.

A eternidade é um desejo ardente daqueles que vivem com ânsia de viver. Todos os dias possíveis não são o suficiente para experienciar toda a existência. Uma linha tênue separa aqueles que, ao contrário de mim, se preparam toda a vida para não envelhecer. É paradoxal. O tempo é ingrato com quem, na imperiosa necessidade de detê-lo, usufrui seus minutos libertinamente.

Quando se olha no espelho todos os dias, pequenas mudanças são pequenas demais. Elas não te estragam a manhã, elas estão escondidas no cotidiano que nos afoga. A peça pregada pelo tempo é sua passagem em conta-gotas. “Envenena-te como um cigarro”, diriam os que teimam em me fazer acreditar que a fumaça me mata pouco a pouco. Essa mesma que leva fragmentos de mim para o intangível etéreo.

A eternidade é um desejo ardente daqueles que são vaidosos. Não se enrugar, não perder a rigidez, não aparentar viver o que viveu. Mas, em si, contar como glórias passadas todas as labutas, as vitórias, as tempestades. A eternidade é, também, um desejo de poder contar, para si, tudo o que viveu, mas estando em pé para vivê-lo novamente. Com viço.

O tempo é implacável, eu percebo quando o hiato entre me satisfazer e te satisfazer se dilata. Quando fito seus olhos de fúria, quando me queimam suas íris incandescentes, eu, que fagulho vez ou outra, que me permito lampejos intervalados. Você não sabe que sua brasa me revive.

Fora do script, um roteiro que não vi entregarem. Como tantos anos se passaram desde a última vez em que tomei consciência dos zeros diminuindo no calendário? Onde eu estive enfiado por todos estes dias? Eu me diverti? Eu estou realmente vivendo todo este tempo? Eu viverei o suficiente para descobrir se todos esses meus passos, que se repetem e repetem, serão um olhar melancólico para trás?


Como tantos anos se passaram entre eu e você?


Uma linha tênue separa aqueles que, ao contrário de mim, se preparam toda a vida para não envelhecer. Os que se conservam para o amanhã, e estarão lá, invictos, quando cinquenta, sessenta anos baterem à porta. Estarei, eu, em farrapos? E se, por ironia, passarmos por aqui um igual número de acordares? Estarei respirando tão leve quanto os que nunca dormiram arfando?

A eternidade é mais próxima de quem vive o que há, tão logo se desenrola esta vida, ou de quem a guarda para saboreá-la aos poucos? 


Você é meu elo infinito com o infinito. Sentir seu hálito, tão estreante da rotina massacrante de um dia a dia do que se pretende ser adulto, é um frescor que acaricia meus olhos levemente enrugados. Em doses homeopáticas, guardando surpresas agradáveis, é sua doce intemperança adolescente que desfibrila meus dias acostumados com a calmaria da mesmice. É entre seu peito, é no calor da sua virilha que reside a eternidade? Eu bebo seu elixir para me manter faiscante. Com viço.

Estou apontando na direção correta, estou?


Quando a ponta dos meus dedos percorrem seus lábios, essa pura seda, eu percebo - o tempo é implacável. Quando meus lábios eram seda também, quando meu furor era orgânico do meu íntimo, o que eu sentia? Como tantos anos se passaram entre lá e agora? Quem me empurrou para esse redemoinho? Quando toda essa estrada, tão e tão longa adiante, passou a se perder de vista no retrovisor? Meu Deus!


Esses calos não foram planejados. Estes anos entre eu e você, um escândalo. Essas ruminações, este desejo de vender a alma agora. Fora do script, um roteiro que não vi entregarem.


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