4 de abril de 2008

A mitologia do preconceito lingüístico (resumo)

Atualmente, em nossa sociedade, vemos uma forte opinião que condena os diversos preconceitos (ainda) existentes. Entretanto – adverte o autor – há um preconceito, não menos importante e prejudicial que os demais, que não é notado por essa corrente opinativa e, ainda por cima, continua a ser despercebidamente disseminado por meios de comunicação, livros, manuais e materiais didáticos: o lingüístico. Se observarmos bem, veremos este preconceito bastante espalhado por aí, em vários conceitos errôneos comumente existentes sobre a nossa língua portuguesa. E são exatamente estes conceitos, verdadeiros mitos, que serão expostos a seguir, com a finalidade de serem explicados e desmistificados.


Mito n° 1 – “A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente”

Considerado o maior mito do preconceito lingüístico, e o mais sério também, ele engana até mesmo “intelectuais de renome, pessoas de visão crítica e geralmente boas observadoras dos fenômenos sociais brasileiros” conforme nos diz o próprio autor. Este mito pressupõe a existência de uma única forma do português falado no Brasil, reforçada maciçamente pela gramática normativa ensinada nas escolas. É um absurdo pensar que, em um país tão grande, com inúmeras diferenças regionais e sócio-econômicas, a língua falada não apresenta variações.
Acreditar nesse mito é acreditar que há apenas uma língua portuguesa correta, a expressa na gramática normativa, e tratar as variações da mesma como inexistentes. Então, o que acontece com os brasileiros que (em sua maioria) não dominam a dita norma culta? Bagno diz que seriam, pois, os “sem-língua”, ironizando a suposta obrigatoriedade de se dominar a gramática para se poder dizer que fala o português. A ignorância em relação às variações da língua portuguesa é um problema muito sério se pensarmos, por exemplo, que a norma culta ensinada como norma correta nas escolas pode representar uma “língua estrangeira” – nas palavras do autor – para os alunos que não convivem com a mesma em seu meio social.


Mito n° 2 – “Brasileiro não sabe português/ Só em Portugal se fala bem português”

Estes dois mitos, também muito comuns, são chamados por Bagno de “duas faces de uma mesma moeda enferrujada” que “refletem o complexo de inferioridade” advindo desde o Brasil colônia. É comum ouvirmos que o português está sendo “assassinado” ou corrompido pela população que não domina a norma expressa pela gramática normativa. Isso é o mesmo que dizer que os brasileiros somente têm o direito de usar o português falado em Portugal, sem nenhuma variação que expresse sua cultura ou status social. Também se escuta que a língua será destruída pela invasão de termos estrangeiros, duramente condenados pelos gramáticos conservadores. Esta previsão é feita há mais de um século e até hoje não se tornou verdade. A incorporação de termos estrangeiros é inevitável, pois nosso país se encontra sob uma inegável dominação econômica e cultural, e de nada adiantaria tentar se resolver o “estrangeirismo” sem primeiro pensarmos na fonte do “problema”.
Para resolver os mitos aqui mostrados, é preciso que nos conscientizemos da diferença entre o português falado aqui e em Portugal, que é grande a ponto de os lingüistas preferirem chamar nossa língua de “português brasileiro”. Bagno a exemplifica com a questão dos pronomes “o/ a”: em Portugal, é comum falar-se “Eu o vi” ou “Eu a conheço”; aqui, entretanto, é raro escutarmos esta construção em uma conversa comum; mesmo quando o falante domina a norma culta, prefere dizer “Eu vi ele” ou “Eu conheço ela”, que é forma usual em nosso país. Trata-se de uma mudança na língua falada brasileira, que cada dia é mais diferente da falada em Portugal. A gramática normativa, entretanto, desconhece ou finge desconhecer essa mudança, essa transformação pela qual nossa língua passa à medida que vai se tornando “mais brasileira”, e não se atualiza, continua se baseando na gramática de Portugal, ajudando assim a se manter essa crença de que o certo é falar-se como os portugueses o fazem.


Mito n° 3 – “Português é muito difícil”

Este outro grave preconceito tem a mesma origem que o acabamos de ver (brasileiro não sabe português). O que acontece, é que a nossa gramática, como já foi falado, se baseia na gramática vigente em Portugal, que apresenta uma língua falada muito diferente da nossa. Assim, o português tal qual estamos acostumados a aprender, o da gramática, pouco uso tem em nossa vida cotidiana. Como diz o autor, nossa concepção de aprender português é “decorar conceitos e fixar regras que não significam nada para nós”.
Fala-se que o português é difícil porque esta disciplina estuda uma língua que não corresponde à língua viva que falamos, cujas regras não são mais utilizadas por quase ninguém e ainda por cima só são totalmente dominadas por alguns, o que contribui para a visão de que “saber português” é algo distante e para poucos. Um bom exemplo citado por Bagno é o caso da regência verbal no verbo assistir. O aluno pode ser forçado a escrever inúmeras vezes a frase “Assisti ao filme” dentro da sala de aula, mas na primeira oportunidade fora dela, usará a forma “Assisti o filme”. Isso porque a gramática usada por nós, uma gramática “intuitiva”, própria do nosso português, não encontra mais a necessidade da forma regencial com a preposição a. A gramática escolar, entretanto, não leva em conta – como bem diz Bagno – o uso brasileiro do português.


Mito n° 4 – “As pessoas sem instrução falam tudo errado”

Este mito encontra sua base no primeiro mito apresentado, ou seja, a existência de uma única forma de português falado no Brasil (necessariamente, nem se precisava lembrar, a forma culta). Dessa forma, qualquer variação do português normativo é considerada errônea e sofre imenso preconceito, sendo até ridicularizada e motivo de chacotas.
Bagno explica que, muitas vezes, o preconceito não existe contra as variações da língua usadas pelas pessoas marginalizadas da sociedade (carentes, pobres, “sem instrução”) por si só, mas sim contra as próprias pessoas e, por extensão, contra a “língua” por elas utilizadas.


Mito n° 5 – “O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão”

Esta falsa afirmação tem por fundamento o fato de no Maranhão se usar ainda com grande popularidade o pronome tu e suas respectivas formas verbais, ao contrário da maioria do Brasil, onde, devido à “reorganização do sistema pronominal”, este pronome foi substituído pelo você. Acredita-se, portanto, que o português do Maranhão é “mais correto” simplesmente porque ele ainda possui o que Bagno chama de “arcaísmo”, ou seja, o uso do pronome tu, que reflete os mitificado “português correto” das antigas obras literárias e da fala comum em Portugal, mas que se encontra em vias de extinção no falar brasileiro.
Não há uma variedade da língua que seja melhor ou mais bonita que outra. “Toda a variedade lingüística atende às necessidades da comunidade de seres humanos que a empregam” afirma o autor. Assim sendo, a partir do momento em que a variedade não corresponder mais às necessidades pelas quais existe, sofrerá as transformações necessárias para se adequar à nova situação. É importante que o mito da língua melhor ou mais bonita seja derrubado para que se abram os olhos para a riqueza cultural das várias variações existentes em nossa língua.


Mito n° 6 – “O certo é falar assim porque se escreve assim”

Seguindo o mesmo fio da falsa crença de que apenas a gramática normativa é o português correto, existe uma tendência a ensinar que se deve falar como se escreve. A aprendizagem correta da ortografia oficial é muito importante, pois a escrita é uniforme para toda a língua (todos precisam ler e entender o que está escrito), mas há uma supervalorização da escrita em lugar da fala. Os diferentes sotaques são expressões culturais próprias de cada indivíduo, e é impensável tentar suprimir esta identidade a fim de se criar uma língua falada que Bagno descreve como artificial.
A escrita é uma tentativa de se expressar a fala, visto que a forma escrita por si só (ou seja, desacompanhada de pontuações e termos acessórios) não consegue demonstrar a quantidade de emoções que a fala o faria. Como argumento da importância da fala em relação à escrita, o autor nos mostra a importância de uma língua na sua forma falada para o estudo científico, pois esta é a sua representação mais atualizada, é nesta forma que ocorrem mudanças que estão a todo o momento transformando a língua. Além disso, “o aprendizado da língua falada sempre precede o da língua escrita, quando ele acontece. Basta citar os bilhões de pessoas que nascem, crescem, vivem e morrem sem jamais aprender a ler e a escrever! E no entanto ninguém pode negar que são falantes competentes de suas línguas maternas”.


Mito n° 7 – “É preciso saber gramática para falar e escrever bem”

Este mito é um dos mais difundidos. Tão comum é esta afirmação que faz com que a cobrança do estudo da gramática seja feita não só pelos professores, mas até mesmo pelos pais, que muitas vezes não conseguem entender quando o professor ou a escola tentam, senão mudar, ao menos abrandar o estudo maçante da gramática.
Para mostrar a inverdade deste conceito, o autor lança mão de vários exemplos que nos mostram o contrário. Um deles é simples e direto e fala que, se a afirmação fosse verdadeira, todos os gramáticos seriam excelentes escritores, e vice-versa. Porém, isso não acontece. Bagno ilustra este exemplo com declarações de relativa ignorância da gramática normativa emitidas por nomes indiscutivelmente ilustres da nossa literatura: Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis.
Outro fato gritante que inviabiliza o mito é a origem das gramáticas ocidentais, na Grécia. Na época de sua criação, sua função era a de registrar e descrever as manifestações lingüísticas livres usadas pelos autores admirados da época, como Platão e Ésquilo. Vê-se aí uma inversão violenta dos valores que temos hoje: a gramática normativa surge como um registro da língua, ao contrário do que hoje se acredita, ou seja, que os falantes da língua é que precisam da gramática para saber como a utilizarem. Apesar de ainda não se ter um consenso exato de qual a melhor maneira de se ensinar a língua portuguesa nas escolas, sabe-se que não é através da gramática normativa.


Mito n° 8 – “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”

Fechando o “circuito mitológico”, este mito se relaciona com o primeiro mito que mostramos, pois ambos mexem com questões sociais. Acreditar que se ascende socialmente sabendo a norma culta da língua é se ter uma visão preconceituosa acerca das variações não padrão da língua, acreditando que, no fundo, só mesmo a norma culta tem validade como língua. O primeiro e mais contundente exemplo mostrado é o fato de que, se o mito fosse real, os professores de português estariam no topo da esfera social, econômica e política, visto que são os mais entendidos da gramática normativa. E isso, sabidamente, não acontece. Mas qualquer detentor de grandes poderes ou propriedades, com sua importância reconhecida pela sociedade, poderá falar como bem entender sem ser questionado. Isso mais uma vez mostra que o preconceito não visa à língua por si só, mas sim quem fala a língua. “O que está em jogo não é a simples ‘transformação’ de um indivíduo, que vai deixar de ser um ‘sem língua padrão’ para tornar-se um falante da variedade culta. O que está em jogo é a transformação da sociedade como um todo...” explica Bagno, concluindo que inútil será falar de preconceito lingüístico sem nos lembrarmos do seu principal causador, a injustiça social.


Referência bibliográfica

- BAGNO, M. Preconceito lingüístico: o que é e como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.

2 comentários:

Eva disse...

Parabéns pelo blog!

Péricles Carvalho disse...

entao - só tem esse post!???


borah atualizah esse blog hein futuro jornalista!!! huahuaua


um abraço