28 de junho de 2017

Com doce voz

Ao som das batidas
Vou lhe contar uma história jamais contada

No compasso dos acordes
Maravilhas serão entoadas de minha garganta

Pálida história, que jamais viu a luz do sol
Medos tristonhos, escondidos no íntimo meu

Não precisaremos de fogueira, jogos ou pretextos
Para queimar a culpa até que se respire


Alívio



6 de junho de 2017

Passada rasteira

[N.A.] Maria pegou o chicote, estalou no lombo
É hoje, levanta a meia, amarra os cadarços,
Que chegou o dia



Da ponta donde vejo a ponte, está meio a meio, prestes a cair no precipício
Mas se salva como que por um fio úmido e transparente
Minha inocência se vai viajando, de braços e mãos a velejar
Um mar sereno que tranço com meus cabelos e fecha minha visão

Dali onde eu posso me postar, estou caído sobre farelos dourados, castanhas a brilhar
Dançando uma ciranda sem ninguém ver meus passos, inventando que tenho o compasso
E olho por cima do ombro, jogando charme ao léu, imaginando que alguém me veja
Da outra ponta de onde me ponho, onde só estrelas há, e com isso a paz que brota no meu coração

Sinto transparência dos sabores que me perpassam pelos lábios, sorrindo
E a doce melodia das folhagens, que acariciam meu rosto sedoso, pois que é feito de memórias
O melhor observador é inexistente, e por isso inigualável – ele olha conforme meu gosto
A sanfona que toca imprime o bater dos meus pés, que dão nós e os desatam, impossíveis, impossíveis

Cresce por detrás de mim o farfalhar das páginas, com elas os dias, os meses e as falhas
Eu enxergo por vários prismas, sento e me admiro com o que meus olhos, geniosos, contam-me
Eu vejo a família crescer, eu festejo o desabrochar da vida em cada pequeno ser, eu me orgulho
Na fila que eu deixo trilhada, sem que seja responsável, ouço palmas e ritmo a (me) vibrar

Da moita que balança aos anéis dos quais já me soltei, pulso um forró natural, pés na terra, poeira levantada
Minha inocência vai me acalentando, já sou santo não beatificado, mas sei o valor de minha intercessão
As sobrancelhas escuras dão a gravidade que a mão, leve, não tem, e executo a reza bem feita

O que vem após a dobra da janela, o que nos espera após aberta a porta, é preciso viver pra saber



15 de fevereiro de 2017

Mariposa

[N.A.] Estou sinceramente obcecado com o silêncio dentro de minha cabeça. Ouço distante e vejo longe, revelam-se fantasmas e flores que estavam cobertos pelos destroços.



Pego de uma toalha pois precisava limpar minha face lambuzada, arrasada. Mas nem tanto. Não me quebraram os pés ou pernas, e embora um tanto quanto manco, saio e olho, com olhos curiosos, para cima. Tormenta interminável, céus nebulosos, atmosfera ríspida. Tudo havia passado.

Sobraram cicatrizes em meu rosto, cigarros mal terminados no cinzeiro e um resquício de perfume que, se um dia já me alegrou as manhãs, agora espero extirpar com a luz forte que invade as janelas e que desce suntuosa pelo teto. Há luz em minha expressão.

Estive calado por tempos intermináveis, que só podiam ser verificados em meus olhos outrora úmidos e vazios. Como numa tumba, passei o que aqui dentro foram eras entoando cânticos a quem, quem?, não os poderia ouvir. E se estava em minhas mãos, em todo o tempo, a chave para inverter esse sarcófago, faltou-me tato para manuseá-la.

De noite, olho-me no espelho. O que vejo é resultado da falta de uma digna consideração sobre mim mesmo? Desfiz-me já das pulseiras, dos colares, dos anéis. Quero-me nu, completamente, de todas as ataduras que carreguei. Sem o peso, sem o temor, facilmente saem sorrisos de lábios ainda muito bem conservados, que guardam-se para o beijo no próximo cigarro, e do outro que ainda vem.

E o sangue que escorreu da face agora cicatrizada, para onde foi? Quando ponho-me sobre os prédios, abraçado às minhas próprias pernas dobradas, em diálogo com a fria neblina da madrugada, ainda não encontro os vestígios que deveriam ter riscado o chão tanto quanto o fizeram ao redor dos meus olhos. Permanecerá, portanto, apenas a minha última afirmação, quer seja somente um desejo acobertado de sabedoria, de que nada foi em vão.

Com tanto brilho saindo do olhar de agora, prevejo que tenha de usar óculos escuros para não ofuscar outras faces. Estendo, dia após dia, os pés para fora da cama, inundado de uma interminável manhã, e contemplo meu próprio despertar. Arrebentei o casulo.





15 de junho de 2016

Calendário

(Ignoro tudo que escrevi nas linhas acima e que, pelo milagre da computação, pude apagar.)



Mesmo contra todas as vontades, eu ainda olho para trás. Na imensidão escura da noite. O tempo é pouco para lamentações, mas divago, ainda, sobre a ausência – não de sentido, não de sentido –, sobre a ausência de materialidade em nossas palavras.

Frases sem peso, plumas expelidas pela boca, tantas e tanto, que me sufoco com língua suave sempre vibrando para manter acesa alguma esperança de haver sintonia entre nós, eternos dialogantes desse balão vazio.

Haverão ainda estes meus rabiscos sem vontade, que escrevo agora somente e unicamente porque por algum jeito precisam ser expelidos, haverão ainda de me dar um triunfo sobre a espera de aguardar o amanhã, sem contudo poder prever que a próxima etapa poderá ser de alguma forma substancialmente diferente.

Sobre a ausência, a busca incessante por um algo a fim de evitá-la é, definitivamente, a única forma de a manter afastada. O rubor só se o sente quando a caminhada é interrompida e os batimentos acelerados gastos para o movimento ficam, pois, sem seus motivos de ser.


Mesmo contra todas as vontades, eu ainda olho para trás, seguindo, passo após passo, adiante.



20 de abril de 2015

Aurora do Tempo

(Cigarro queimando na janela mostra como estou ausente, embora sentado em almofadas.)

Não é a cidade. Sou eu mesmo. Estar em janela na escuridão, observando os parcos carros que lá debaixo passam acelerados, num jogo de luzes vermelhas e amarelas, pisca pisca urbano, virará meu passatempo no decorrer dos anos. 

Sustentando um espírito leve à sombra dos desejos carnais, dos desejos vis e adolescentes, vi tudo se tornar pesaroso e desencantado demais. Como uma ovelhinha que se cobre com piche e se impregna dali para o fim.

Depois do bolso cheio, a calma de um futuro tranquilo se esparrama de tal forma que o sentido se esvai na pressa de saber E agora? E agora, como será colher estes frutos pelo findar dos anos, sentado nessa poltroninha de vime enquanto carros passam lá abaixo?

Não temos mais a idade deles, James, não somos mais atraentes como eles. Desejamos a juventude como uma fagocitose para nossa alma envelhecida, queremos sentir pulsar sobre nós, sentir no tato sobre a jugular, na quentura da língua, a energia viva que entumesce e deixa jovem, liso, sedoso.

Para os solitários como nós, todo o vinho de uma adega particular será pouco. Porque por mais que se revire, o avesso permite ainda mais uma torcida e nunca se atinge o âmago da dor, que permanece espessa e esfumaçada, concomitantemente, nos golpeando com sutileza.

Tenho medo do câncer e de doenças terminais, James. Ainda assim, fumo, fumo e celebro a vida. Mas tenho a certeza de que a consciência nos tornou descrentes, embora ainda injetemos nossa dose de tranquilizante e nos alienemos de quando em quando. Minhas costas doem, acho que é a cadeira. Faça lá mais um café, por favor.


7 de outubro de 2014

Reencontro

João desligou a televisão, já chega, já chega por hoje, inconformado com a política. Na cozinha, jogou uns pães velhos na frigideira gasta, gasta como estava sua manga comprida puída e cinzenta, tirou café quente do bule. Fumegando.

Maria, ajeitando a gola da camisa, repassava o ferro pela terceira vez, tarde chuvosa de terça-feira, olhava pela janela e via carros e sombrinhas nas ruas, mas por dentro a agitação de sua vida estava tal qual a emoção de esfregar o metal quente sobre a roupa teimosamente amarrotada.

Dois quarteirões dali, na Panificadora da Avenida, de roupas molhadas, Marcos se senta e pede um misto quente. Está frio na rua, e ainda traz ele a barra das calças encharcadas. O relógio funciona mas é difícil precisar os minutos. Porra de relógio vagabundo, pensa, ao ver que a água que havia entrado por dentro do visor evaporara pelo calor do braço e agora tudo estava embaçado. Mas trazia um regozijo profissional e dificilmente, naqueles dias, abaixava a cabeça. O horizonte se mostrava ensolarado em suas perspectivas.

Com a flanela e o frasco de álcool na mão, Elaine fazia movimentos circulares nas vitrines da boutique, tentando remover as marcas dos dedos dos clientes que não sabiam olhar com os olhos os ternos em promoção, os sapatos que, ela sabia, despedaçariam as solas em poucos meses, produtos velhos de estoque que justificavam a liquidação. Elaine era absorvida pelo entra e sai dos clientes alvoroçados e desde que assumira o trabalho na Autónomo tinha menos tempo para repensar sua trajetória de moça radicada na capital-cidade-promessa. Coisas da rotina.


Por um telefonema, Marcos e João se reencontraram. João, que tentava levar a vida de escritor e andava meio mal sucedido naqueles meses, fora alguns artigos pagos para jornais e os bicos como revisor de texto e normas para monografias. Marcos, executivo promissor, oito anos mais novo e notadamente mais visionário.

Maria era dona da farmácia que lutava por sobreviver num bairro suburbano ante o avanço cada vez mais agressivo das redes de drogarias que demoliam a concorrência de modo avassalador. Vivia na sobreloja, dividindo sua atenção com os afazeres domésticos e Jaciara, o peixe cor de rosa que ganhara no bingo beneficente da paróquia.

Uns nove anos atrás, se não me falha a memória, Maria e Elaine se formavam na mesma turma de graduação. Do interior do estado elas seguiriam, separadamente, rumo à mesma cidade, sem saber ao certo o que as esperaria. Maria aproveitou da prática em outras farmácias e poupou a ponto de montar o próprio negócio. A frieza da nova cidade a fez forte e boa administradora. Elaine amargava o descaso com suas próprias escolhas, que, numa das várias instâncias, a levaram a desperdiçar a mocidade com uma formação pela qual nunca se interessou.

Marcos 25, João 33. Conheceram-se num festival de arte, tempos atrás, imensidões de realidades atrás. João era um entusiasta, Marcos titubeava entre escolher o Direito ou a Engenharia – mundos distantes como se um se chamasse ele mesmo e o outro, João. Foi um romance de fim de semana que se estendeu por alguns meses, com toques de produção norte-americana aqui e ali. Os sonhos juvenis que tinham terreno para crescerem, numa certa irresponsabilidade que acompanhava o entusiasmo explosivo de João e a pouca idade de Marcos.

Elaine nunca havia tocado uma mulher. Até aquela semana, em que se permitira sair de sua vidinha interiorana para conhecer um evento que chamavam de cult, era quase a moça boba que admira os homens que lhe passam na janela, com exceção de que estávamos lá no século XXI, e esses romantismos não existem mais.

Samba, cerveja, garoa. Frio. Volta pra casa, todos meio altos, frio, abraços. Casa grande, alugada, alguns remanescentes da festa daquela noite, gente aqui, cômodos vazios ali. Cerveja, funk, música eletrônica. Risos, boca de Elaine sendo tocada pelos dedos adocicados de Maria, volúpia, medo. Carícias que jamais seriam tomadas como cristãs, 'Deus me perdoe' num íntimo abafado pelo desejo, curiosidade e pavor. Depois daquela noite, Elaine conheceu os seios rijos de Maria e a crueldade do autojulgamento e da punição da criação tradicional. Fechada em si, mal ousou desafiar palavras à colega de sala nos anos que viriam. Quando muito, olhares que se prolongavam ao encontro da outra e logo eram tolhidos pela mente perversamente moral.

Maria, que não tinha mais idade mas sempre fora mais desligada, desplugada das convicções morais, usava roupa relaxada e não escovava os cabelos. Também não se importou – ou não se mordeu – com o afastamento da affair de uma noite. A vida valia mais que se prender a acontecimentos e pessoas conflituosas.

O tempo passou e as birras de João se tornaram mais frequentes. Amargo e extremista, deixou que sua visão do jeito de ser das coisas obscurecesse o retrato que tinha do seu par mais juvenil. Marcos não tinha perspectivas, ele dizia. Era jovem demais, inocente demais, perdido demais. Apolítico. Marcos, que não queria ser direitista ou esquerdista, nem estava aí para ideologias e preferia se concentrar nos seriados que a TV paga do pai lhe oferecia, sofreu mas não entendeu quando a frieza de seu namorado se instalou de vez. Chorou, secou a fonte, diminuiu-se, mas não pode evitar um fim prenunciado.


Deus que me perdoe, lembrou Elaine quando adentrou a farmácia atrás de um ansiolítico qualquer que a fizesse dormir mais de quatro horas por noite. As olheiras profundas as tinha encobertas por espessa maquiagem, com abuso de um pó de tom canela como sua pele. Um nó na garganta contorceu a voz de Maria, Maria do ferro de passar roupa e da vida adulta amarrotada e sem graça como uma camisa social.


Marcos, com uma mão no misto e outra no jornal do dia anterior, deteve-se por instantes na análise política que buscava mostrar as tendênciasvnegativas que viriam com a possível vitória da oposição naquelas eleições de outubro. As opiniões rasgadas o atravessaram tanto quanto a assinatura: João Queiroz Martins. De repente, naquelas palavras duras, viu-se um estudante de cursinho, bermudinhas apertadas e mocassim.

João lavava o bule e secou apressadamente as mãos para atender o telefone que tocava.

- Alô?

- Alô. João?

- Pois não, é ele.

- Jo... João. Sabe quem está falando?

- Não, não faço ideia. Quem é? É pra monografia?

- É o Marcos.

- Marcos?

- O Marcos de sete anos atrás.

- O... oi? Como?


Na noite seguinte e nas que se seguiram, Maria passou a se esmerar mais nos cuidados com a casa. Elaine pediu aviso e demitia-se da Boutique Autónomo, que, num passado distante, já fora referência em moda masculina, numa época em que a capital ainda ensaiava passos de cidade grande. Num passado menos distante, Elaine se martirizara com concepções morais que trazia da família patriarcal que a gerara. Agora, a vida encontrava meios para se fazer valer, e, diluídos nos impasses do cotidiano, dois pares de olhos pareciam encenar um conto de fadas, meio às avessas e com referências que pareciam originárias duma teledramaturgia. Maria e Elaine, cobertas, mãos atadas, dormindo suavemente.


Depois de uma noite que entrava na madrugada, aquecida pelos vinhos baratos do escritor puído, pelas ices do administrador de olhos claros e umedecida por lágrimas e contestações, Marcos seguiu para casa num táxi prateado. Na mesa de João ficava um cartão de negócios, que lhe podia valer por ter um telefone e e-mail de contato, mas jamais seria utilizado. O menino crescera e o entusiasta político se apequenara. Sem intimidações ou trocas de farpas, puderam ver que o tempo que mudara as perspectivas de ambos também secara o terreno em que um dia floresceram esperanças de uma vida hollywoodiana. No deserto daquela distância, somente lágrimas poderiam matar a sede, mas eram salgadas e o solo não se faria fértil novamente.

Quando fechou a porta, embasbacado pelo reencontro, pelo acaso, pelas mudanças que via operadas em Marcos, pela forma fria com que um dia havia ensaiado um fracasso intelectual no então pueril companheiro, levantou as mãos para o céu, fechou os olhos atormentados e vermelhos e gritou em silêncio. Pudesse ele, naquele exato instante, ser ouvido pelos anos e anos que se passaram.

Naquela noite, dormira com o rosto marejado, pensando na mediocridade que a vida podia assumir e como foram os caminhos para chegar até ali. Nas noites que se seguiram, o torpor diminuiu e os tormentos do próprio cotidiano cuidaram de apagar aquele êxtase de uma noite, e a vida seguiu-se.


(imagem: Reencontro, de Iamara Saute. Disponível em http://iamarasaute.com.br/)

7 de julho de 2014

Juaum

Juaum se debruça sobre as cobertas. É moleque na vida real e mlk na dúbia vida virtual. Juaum dezessete anos, pele sem pelo, tom de canela que foi ao forno para dourar. Juaum boca carnuda, penugem ao invés de bigode, que cultiva com orgulho, Juaum marginal não marginalizado, Juaum levado e frágil, brigão e retraído, feminino e masculino.

Na piscina, corpo esbelto com curvas suaves, é um torpedo humano, olhos levemente puxados e nariz esculpido, orelhas comportadas, mas o olhar é pronunciado, é prenuncia de perigo, quem mexe com Juaum mexe com a força criadora, o braço da Justiça, que é vendada, mas com lenço, e enxerga por cima dos panos.

Juaum estudioso e preguiçoso, queria subir na vida mas tinha delírio nas escadas, Midas moderno, tinha desdém do que não fosse seu e protegia suas posses como que de ouro fossem. Juaum lolito, Juaum esperto, precoce e ardiloso. Marrento e angelical, uma miragem em meio a um oceano salgado, miragem tropical, com marca de sunga no corpo.

Um dia Juaum amou. Despiu-se de suas vaidades e projetou-se num futuro que não era seu. Deixou de lado a falsa humildade e assumiu o olhar perverso que era sua alma sem cortinas. Roupa cinturada, braços musculosos, gestos delicados, passos de gato, Juaum não pisa em falso e brinca com suas vítimas, joga-as para cima e dá leves patadas, cravando-lhes sutilmente as garras fulminantes.

Juaum manso e arrebatador, sincero e covarde, Juaum pleno. Possessivo e ciumento, protetor de sua cria, que também era seu tutor. Juaum que encantava pela beleza e paralisava como Medusa, Juaum canto de sereia e espinhos de baiacu. Juaum tóxico e doce, armadilha armada e certeira. Juaum quase absoluto, porque o quase sinaliza que no próximo estágio está a perfeição destilada, em perfume e encanto.

Juaum bate, Juaum arranha o carro, se humilha em plena rodovia, Juaum quer ser amado e não pode admitir ser trocado. Juaum quer atenção, Juaum merece dedicação, quem não quer amar Juaum? Juaum troféu exposto na vitrine da boate, Juaum pau grosso, Juaum lábios suaves. Você não pode não querer Juaum.

Juaum apaixonado, lâmina debaixo das mãos, Juaum que faz sangrar e berra, Juaum que se atira no chão, Juaum bebê desprotegido, Juaum que precisa de sua mão, Juaum, encanto, Juaum. Por que você teria medo de Juaum?

Juaum jantar romântico, Juaum estilhaços de louça pelos ares, Juaum rastejando-se atrás de seus pés, Juaum precisa de seu carinho para se manter são, seu olhar fixo é o motivo da continuidade da vida de Juaum. Não percebes que assim pões em desespero o próprio Juaum, que pra você vive e arrasta-se por todas as esquinas? Juaum e você em fuga, Juaum perseguição. Não pode se livrar assim de Juaum.

Juaum fogoso e bom marido, Juaum perseverante e bunda empinada, Juaum povoa seus sonhos e lhe faz gritar no meio da noite, Juaum pode estar em todos os lugares, por que não estaria em sua cama agora Juaum? Se Juaum quer, Juaum tem de ter, Juaum deseja, Juaum exige, Juaum está cobrando sua contrapartida, por que não respirar por Juaum?

Juaum corta seus amigos, ninguém precisa de ninguém além de Juaum, Juaum modesto, Juaum beira a perfeição. Juaum te avisou, não se deve brincar com Juaum. Juaum criança indefesa, Juaum adolescente problemático, Juaum corpo de consumo de todos os sonhadores. Juaum rosto em pranto, Juaum gritos abafados, Juaum sexo cavalar, Juaum pés bem cuidados. Você não vai escapar da obsessão de Juaum.


3 de julho de 2014

Confissão em guardanapo



A cidade nos oprime. Os sons nos reprimem. E ciclicamente, vamos nos estourando em uma imensa nuvem de sentimentos, cada qual fora de seu lugar. São milhares de janelas, luzes, apartamentos. Olhos em vigia, de uma entidade que jamais dorme. E vivemos escondidos nas esquinas, longe dos holofotes. Somos diminutos, frente à imensa solidão de uma multidão de desconhecidos. Mas nosso maior desconhecido está dentro de nós. Os limites, as conformações, os vacilos: andamos na beira. E vamos nos implodindo em um tufão de paranoias, cada qual reflexo de uma lembrança.



28 de maio de 2014

A Procura e o Encontro

"O velho senhor se cansou da caminhada e sentou à beira da estrada."

Andamos, andamos, e colhemos flores desta vida tão amigável. Se seus dias são de sorriso, também são os meus, e manteiga quente escorrendo no pão todas as manhãs. Por onde passo vemos senhoras e chapéus que se cumprimentam. No bailar, todas as vidas seguem como girassóis, a rodar em acompanhamento à luz.
Mas passarão dias e dias mais felizes e algo soará estranho. Por mais que se ande, não se sai do caminho, que é um eterno andar e cujo retorno só nos leva ao mesmo círculo. Ele, que andou mais que nós, já se foi e, ainda sim, não encontrou o que procurava.
Meu cigarro queima no cinzeiro mais próximo e me diz “É uma perda de tempo”, e o velho jazz da big band alerta que não há mais rota possível. A procura só acharia o encontro se se andasse para trás, como se regredíssemos o tempo sem que, no entanto, houvesse um regresso. Como voltar do avesso.
E, no entanto, celebramos a tecnologia e fazemos louvores aos botões, às luzes. Estamos encapsulados nessa modernidade sintética e não há escapatória. Os que tentaram morreram, caminhando. Sabemos que ele andou buscando, sem no entanto encontrar.
No bailar, todas as vidas seguem como girassóis, mas a caminhada conduz aos mesmos questionamentos. À busca de soluções, entulhamo-nos com os significados que encontramos pela jornada.


10 de março de 2014

Anos depois, aquela estranha visista


“Hoje não escrevo para mim, não escrevo por mim, não penso, não sinto, digito, transfiro, enojo-me, tenho repulsa, sou atraído, ensaio, caio, arrasto para eles.”


(Foi aceso o último cigarro do maço. O maço não será o último, mas o ato é simbolicamente valioso. Porque são onze e cinquenta e nove de um domingo qualquer, e até amanhã não haverá mais cigarro que supra. Mas isso, isso são notas apenas, e nem deveriam estar aqui. Eu tento não me por aqui, mas tudo isso são pedaços meus, refletidos nos movimentos histéricos feitos nas teclas. Isso tudo sou eu. Embora hoje eu não escreva para mim. Retiro-me.)


Anos depois, aquela estranha visita. Ao tempo passado de quando você foi feliz e não soube. Aos desejos suprimidos, reprimidos por uma necessidade intensa de carinho. Misericórdia, Senhor! Eu travo esse diálogo comigo, que não é um monólogo porque, eu sei, há alguém neste interior que grita, e pede pouco, pede um facho de luz, um lugar ao sol, por minutos, por momentos. Mas está sufocado, e nesse diálogo de raiva, aqui, bem aqui, sobram cinzas e uma garganta engasgada, que dói ao gemer.

Mas ninguém nunca foi feliz realmente. Porque a promessa do dia melhor é para amanhã. Quando poderemos repousar a cabeça confortavelmente no travesseiro, sem problemas e sem medo. E você consulta seu relógio, faltará muito para o próximo dia? Durmo hoje porque quero que o amanhã chegue logo, e minha rotina se faz entre uma ou outra espiada no calendário, está logo ali, o dia do sorriso verdadeiro, que se estenderá de orelha a orelha. O dia que vou me olhar no espelho e sentirei tesão pelo que vejo. O dia em que estiver adornado conforme meus planos, com as chaves certas no bolso. Até lá, sou escravo da ilusão, e gastamos os dias com promessas.

O tesão e a vida são um só, e seguem da mesma maneira. A vontade de possuir é a vontade de destruir, e de se autoconsumir. O que eu faço com o corpo do outro é destruição, mas gosto e gasto-o a meu bel prazer, até que jorre por toda a cama este esperma barato com odor de pecado. Depois do consumo, o momento passageiro de conforto, do ápice. A cama é arena de batalha, e o objetivo do jogo não é se satisfazer, nem satisfazer o outro. É a batalha do ego, e vence sempre a performance. E nesse vai e vem passam-se corpos, tempo, sentimentos debulhados e lençóis lavados, cheirando a amaciante.

Anos depois, aquela estranha visita. Por que tendo vivido tanto, parece que andamos tão pouco? Por que, tendo passado tantos dissabores, parece que construímos coisa tão miserável? Até então não se viveu plenamente? O mais doloroso é quando se anda próximo ao fim, quando já se vê o fim do horizonte, e carregamos a sensação de ingratidão conosco mesmos. Por que fizemos de tamanhos braços e pernas um legado tão inexistente? Por que não gritamos e vibramos de verdade? Por que engolimos tantas palavras boas e ruins, e por que perdemos tantas horas para rir da desgraça do próximo, enquanto dançávamos cavando nosso próprio túmulo?

Aquela estranha visita, anos depois. No nosso íntimo, um coração sangra, e é dor genuína. Infelizmente, mais genuína do que fomos em nossa existência toda. E ninguém nos cobrará além de nós mesmos. E pagaremos o preço, amargo, por cada ensaio, por cada simulação. Quem titubeia não vive, quem ensaia não vive, quem se senta no muro não vive. Assiste, no máximo, à vida que gostaria de ter, observando-a e invejando-a no outro.


A agonia está no quarto, escuro, e sozinho, com cheiro de gozo ainda quente na coberta e uma música mal sucedida no rádio da sala. Anos depois, aquela estranha visita ao que poderia ter sido tão maravilhoso. Mas não passou de uma maquete metida numa bolha.



3 de dezembro de 2013

Sobre a garganta e adjacências

"Quem ouviu o último tiro?
O último grito
O último olhar perdido
O último sorriso desencontrado
Quem escolheu o último acusado?"


Estralo os dedos porque quero, e me embaso de ocorrências fúteis nas últimas negociações. Tenho um gosto tão podre como o dedo e não me esforço para deixá-lo transparecer. Há uma pedra entalada na garganta e empurro com o dedo, forçando-a para baixo com cerveja e outras coisas amargas. Nada de doçuras por hoje.

A falta de talento me inebria, a falta de tato me enoja, e poucas coisas me constroem. Chega de dedos por hoje. Chega de doçuras, de melaços e de rebolados. Esse desespero desencontrado com meu estado pacífico de espírito bate na face como um tapa de pura sacanagem. Coisa baixa, de linha perversa. Somos todos bons animais, adestrados para sugar o melhor. Nada de doçuras por hoje.

Não preciso de um amor, mas de um admirador. Não quero compaixão, quero plateia. E que saiba aplaudir, que saiba bajular. Pago, se for preciso. Não gosto de observar que estou sendo observado. Mas gosto que me observem. Enquanto desfila o corpo pululante entre as folhas secas, sem graça bem como sem graciosidade, enquanto saltita as calçadas, quero holofotes virados para mim.

Não me importo de ser asqueroso. O asco me comove, e como pedra, me deixo rolar e encardir. Faz parte do meu cotidiano. Não me importa espantar, e continua sendo uma jogada divertida, deixar bocas abertas pela passagem do movimento deselegante. Despojado e despido. Mas carrega-se em punho a fumaça, guardiã fiel de todas as impunidades.

Há um escarro cremoso e sedoso preso na garganta, e por querer retê-lo é que fecho a boca. Calado, armado e pronto para cuspir. Olhos faiscantes, parecem belos? É o olhar inquieto de um porco encurralado, que a tudo observa, e mais urra que pensa. Se o olhar reconhece o perigo, o coração se acende e apaga, como um curto-circuito, é falha, é frio, é bonito de se ver. Mãos frias, coração quente, e é por isso que meu tato é fumegante, surpreendente. Há alguma coisa de negação que, no entanto, é uma súplica bem disfarçada.

Quem ouviu o último olhar perdido, o último sorriso desencontrado? Sem destinatário, é jogado a esmo, esforçoso por parecer natural e não planejado, pois tem-se medo da vergonha de ser jogado ao vácuo. Amarelo o sorriso, branca a alma, rugosa a região dos olhos. Dedos finos cor de carne desejosos de percorrer algum corpo jovial qualquer, repugnantes ao primeiro contato, amedrontadores ao segundo. Nada de dedos por hoje. O pior não será o asco enquanto para além dele houver a invisibilidade.


Tantas ocorrências fúteis e esse esforço por parecer desesperado com a surpresa banal. A preocupação dos outros em se padronizar e conferir valor a detalhes me faz cuspir aquele escarro sem nem mesmo planejar fazê-lo. Chega de doçuras por hoje.



2 de novembro de 2013

O Rei, destronado

Mas de repente uma névoa de umidade e tristeza moveu-me céus e terras, abriu brechas largas no meu coração pequeno, este betume. Os olhos molhados, o olhar cansado, a visão turva. E via turmas e grandes corjas movimentando-se para cima, movimentando-se para baixo, num passeio de vai e vem, risadas, lágrimas, braços dados, pernas jogadas.

Tenho cadeiras de madeiras que não falam e um jogo de talheres que não são de prata. Mas me pouparão da solidão quando o último tiver se levantado da minha cama dura, esta que não consegue reter ninguém por mais de alguns minutos. E uma névoa me cobriu os olhos por alguns instantes, e nem muitas toalhas de muitas lojas de departamentos os conseguiriam desanuviar.

Garrafas na mesa fazem parte de uma decoração antiquada, onde tudo já está posto onde está e as paredes gritam palavras de conformação. De repente a casa fica apertada, de repente as paredes se distanciam e o cômodo fica grande. Cortinas retorcidas pelo vento, este vento, esta tormenta que vibra as janelas e levanta os tapetes. Tapetes voadores pela casa, panos estalando no varal, chicoteiam o ar e a mim.

Contudo tenho chaves e outros cigarros que me pouparão do desfecho triste quando o último tiver voltado a si e, numa repulsa automática depois do prazer barato, levantar-se e dirigir-se à porta num só golpe. E a porta, misericordiosa, mantém-se aberta à espera de alguma brisa que queira varrer da casa o cheiro de glória murcha.


Algumas filosofias baratas, aparentemente ridículas, e os cigarros permanecem.



6 de outubro de 2013

Declaração súbita de amor


Inebriado, circundado de calor, fumaça e gatos, olhos por todos os lados, observando ao léu, observando tudo menos eu, dissaboroso, sentado, circundado de calor, fumaça e gatos. Sentado assim, escrevo. Escrevo não sei para quem, essa declaração de amor descuidado. Perdido, desolado, sentado. Olhos no papel, ouvidos atentos a uma música que toca longe, em alguma festa num vilarejo no interior, fora de meu alcance. Tão longe do meu alcance está o personagem detentor do meu coração, para quem escrevo este bilhete mal redigido. Mas a paixão é tanta que não me permite virgular bem, ou, se virgulo, não me permite inserir parágrafos ou separadores discernitivos. Escrevo, eu sei bem, mas perdido neste colchão em que me afundo, só sei da fumaça que ronda meu coração, esta brasa acesa, chorosa. A música que toca distante vai se distanciando cada vez mais, distante, baixa, abaixando, distante, e em consonância vou perdendo a razão. Sobra apenas o coração.



29 de setembro de 2013

Mão ao ar

Inevitável acender um cigarro, e danem-se as disposições contrárias.


Não me importa se você não me olhar. Ainda assim continuarei passando. Deslizarei meus dedos por sua pele, espalharei pérolas pelo chão e beijar-te-ei os pés, numa adoração desmedida.

Quando recebi aquele bilhete, o guardei; sabia que poderia ser o último de uma vida inteira. Poderia ser o último trocar de olhares com outra pessoa humana, com outro animal que materializasse sentimentos em um beijo. Não, não são todos os que sabem beijar. Nem todos transcendem pelas vísceras as emoções e falam até mesmo por um aperto de mãos. Ah, sou um espírito tão solitário.

Quando olhei pela última vez, vi um homem parado à porta do shopping daquela avenida. Eram dez da noite, e era domingo. Carregava um embrulho numa das mãos, ração para gato, e a outra a tinha solta no ar. Inconscientemente, quem sabe, não procurava uma outra mão à qual pudesse entrelaçar os dedos? O quão inocente podia ser, o quão solitário não o era? Fez-me pensar, parar, hesitar.

Quem acompanharia o estranho para casa, senão sua sombra, fraca pelas luzes débeis dos postes? Quem o esperaria em casa, além do bichano? Da próxima vez que tiver vontade de gritar, gritarei. Quando me acometer vontade de agarrar-te, dar-te-ei uma rasteira e seu corpo premirei com toda a força de uma alma desesperada pela vida.

Acendo outro cigarro, e danem-se as disposições contrárias, porque se eu não for viver para meu prazer, que me adianta seguir a cartilha de bons modos?

Ah, eu tenho saudade de tanta gente, oh, Pai! E tenho saudade da gente que nem conheci ainda, como é possível? Expilo pelo universo energias de amor, explosões que acometem meu espírito noturno. Talvez um dia haja resposta, e me batam na porta, encontrem-me no supermercado. Quantas surpresas o jogo da existência não reserva entre um minuto e outro, entre uma prateleira e outra?


E, enquanto entrava a madrugada, o homem, sentado em sua poltrona acolchoada, envolto de carpetes e móveis de madeira escura e maciça, tinha em seu colo um felino de olhos verdes, quase bioluminescentes. Uma das mãos, apenas uma, apoiada sobre o colo. E assim adormeceu.

9 de setembro de 2013

Capítulo 21-24: do amor que não se esgota

Esta é uma declaração de amor que envolve cigarros, escuridão, ar fresco, folhagens molhadas e, quem sabe, uma correspondência, embora eu não acredite nela.

Como não te vou entregar pessoalmente isto, é capaz que nunca você a veja. Como não vou bradá-la por praças e em saraus literários (ai!, pretensão minha, ai!), é capaz que dela você jamais tome conhecimento. Não me importo. Joguei pelo universo as sementes deste amor tão profundo e tão impossível, espalhei energias pelos quatro cantos, sou a irradiação do amor.

Como não te vou ver dormir, como não te vou tocar a face enquanto ressona, provavelmente você não poderá sentir o carinho imenso que tenho aqui, guardado em mim. Este carinho que floresce a cada dia porque dele cuido muito bem, e que jamais fermenta porque entre nós não há um risco sequer de desentendimentos. Esta compaixão que, eu sei, é mútua, ainda que eu não possa dela provar agora. Não me importo.

Como não estou presente em suas realizações mais recentes, não te posso abrir um sorriso e esperar que venha tudo ao meu ouvido, e nem te posso contemplar a face rosada enquanto conta, com empolgação, suas descobertas e seus êxitos. Mas deles sei, deles todos, porque entre mim e ti há uma conexão cósmica, uma força poderosa e que, sendo universal, não é impedida pela distância, seja ela física ou de pensamentos. E sei que, ainda que eu não pense em ti todos os dias, sua imagem não se distancia de meu Eu. E nem se distancia do seu a minha. Eu sei disso, e por isso não me importo.

Como em seus acordares diários, às vezes difíceis, às vezes esplêndidos, não te estou acompanhando, não posso provar do beijo seu, que tem sabor de mel e é forte como conhaque. Mas embora eu esteja longe da sua companhia agora, eu guardo no meu íntimo este sabor adocicado do amor que já tive e ainda tenho de ti. E por isso não me importo. Eu tenho em mim o melhor de ti, e como um bom amante e o apaixonado incorrigível que sou, você sabe, jamais deixo que seja subjugada essa lembrança.

Como na alta madrugada não te posso visitar, subindo sorrateiramente as escadas do apartamento seu, acabo por fumar sozinho o último cigarro da noite ao invés de trocar com você suspiros eclipsados por luz e fumaça. E não te posso, portanto, fazer comparações com as coisas que vivi e as que viveremos ainda. Mas não me importo, com tudo isso e apesar de tudo, não me importo. Porque ainda que eu não seja, por nem um dia sequer, correspondido, vivo este amor em mim. Este amor que é maior que os troncos das árvores em que já escoramos as costas em outras tardes, que é mais gostoso que as risadas que já demos ao telefone. E, quem sabe, as forças cósmicas não te trarão um dia à minha porta, num belo sábado de manhã?



7 de setembro de 2013

Linhas escritas, porque muito ficou a ser dito, e a quem gostaríamos, não falaremos

É dura a dor da dor.

É duro a saudade, são doloridas as lembranças que não podem ser mais revividas. É difícil quando se instala permanentemente a ideia que não se poderá mais contatar o ausente, que ficaram palavras e frases inteiras por serem ditas. E não serão.

É difícil pisar novamente o mesmo chão, levantar a poeira e olhar pela janela. Porque o término de uma era carregou recordações inteiras e nas promessas de serenidade e paz que beirasse o absoluto eu já não acredito mais, já não as vivo mais. Em minha cabeça, desespero. Porque em tudo que vejo agora há decadência.

É dura a dor da dor.

É duro da voz ter somente a memória, não poder mais ouvir as histórias nem acompanhar os passos. É duro ver uma construção se desmoronando. É duro não poder mostrar vitória a quem muito a esperava. É duro não precisar mais se empenhar para fazer os cafés levemente amargos. É dura a dor da dor.



A José Gomes de Paula *1936  †2013



28 de julho de 2013

O Dragão de Fogo



O dragão se levanta, é noite ainda. O dragão se alimenta, se espelha, alicia a si e aos que o envolvem, o dragão se protege. O dragão se levanta, é noite ainda, e com ele, ao seu bater de asas, apontará no horizonte o primeiro levante da linha primária de raios de Sol a iluminarem a Terra neste dia. Estrondoso.

O dragão se levanta, é noite ainda, todos dormem. O orvalho amorteceu por quase doze horas as folhagens, os corações, a promessa de paraíso. Todos estão úmidos, mortalhas envoltas em trevas, húmus, folhagens, terra fria. E eis que se levanta o dragão. Bradam e estremecem nos menores refúgios de sombra todos os espíritos assombrados. Eis que se levanta, ele.

(Os olhares desencontrados, chorosos, e os homens que vagam olhando pelos retrovisores da vida. O cigarro deixado aceso, a fumaça espessa presa em olhos marejados, a viscosidade aveludada presa em membros entumecidos. Tudo o que era pra estar e acontecer mas, por um minuto, recuou-se. O dedo em riste, o trovão, a sentença, o brado, os olhares fulminantes. Mas, reparando bem, estávamos todos parados, congelados. Era a membrana, voluptuosa, singela, galante, do bem estar. Era esta parede, este invólucro de bons costumes, esta cadeira confortável que mantém-nos as pernas a balançar, envoltas em tiras de cetim. Quando menos esperar, a vida, esta que deixamos passar, pega-nos. E aí será tarde.)

O dragão se levanta, é noite ainda. Ele respira, exala, observa, assustado, o próprio acordar. Ele, que é o amanhecer e o florescer, e outros verbos, ainda, encarnados em si, sem que o saiba. O dragão se levanta, é noite ainda, e olha-se com olhares de quem se ama, mas é contido. De quem se admira, mas é tímido. Para si é um mistério maior que a vida, embora a vida seja, tanto quanto, tudo o que é contido em si. Sem que, entretanto, saibamos. Sem que ele desconfie. E eis que, sob o som dos aplausos de todos os seres, virando-se em toda sua imensidão, levanta-se, ele.

O dragão se levanta, e com ele acordam as esperanças e a ventania. Ele olha, penetrante. É um mago metido em vestimentas de sacerdote. E, ao rufar dos tambores mais distantes das entranhas do planeta, agita suas asas, e com este alarme chegam os raios de sol, o canto dos pássaros e a brisa matinal, que varre o mundo e tem o aroma do café. O dragão se levanta e com ele a manhã, que é ele próprio. Estrondoso.


9 de julho de 2013

Carta de Marília a Augusto


“Só me sinto querendo ir pra casa, deixar cair lágrimas no caminho e panos no chão. Os panos serão brancos mas irão se embarrear de tragédia e estupidez. Só me sinto querendo me desvencilhar de todas as mãos e ir pra casa.”




Local desconhecido, 09 de julho de 2013


Para Augusto,
Senhor da minha espera


Quando eu estava em paz, você apareceu a mim e nada representou além de um convite um sorriso tímido. Mas tola, eu, que caí envolta nesta timidez sua, e foi, você, deixando-me envolver, envolver por quem?, envolver pelo quê?, até estar quase completamente embaraçada por fios que eu mesmo teci e com os quais me sufoquei. Porque eu estava em paz e você me removeu dela, porque minhas noites eram solitárias e você as preencheu com expectativas, expectativas cujas ações comprei e me tornei sócia, sem saber, contudo, que se tratava de uma empresa fantasma. Porque eu estava só e minha solidão me é minha melhor companhia, mas você apareceu e, como sempre, acreditei que alguém pode ser melhor que estar só.

Você acontece, eu me solidifico. Você permanece, eu me esvaio, navego obscuramente sobre as águas sob forma de névoa. Você se reforma, eu sou amorfa. E eu gosto de ser amorfa, mas talvez seja o mal de quem é amorfo: tão logo encontra um recipiente para se depositar e tomar a forma do depositário, não hesita em fazê-lo. Foi o que me causou, você: me mostrou o frasco mas tapou-o antes que eu pudesse ali me ter, e virei sopro que ronda a esmo.

E se você me chamar de novo, direi: estou descabelada, mergulhada na lama, agora. Não posso ir.

Você não é ardiloso, contudo. Nem eu e nem você jamais nos oferecemos compromisso, embora, tacitamente, alguma coisa pudesse haver ali. Naqueles tapetes felpudos, enquanto mãos se entrelaçam, o pensamento viaja e eu encontrei algum tipo de sobriedade que me fez sentir bem. É assim com a companhia sua: faz-me bem, ela, logo, dela sinto falta. Automático e pragmático. Mas não consigo compreender-lhe e acabo o enxergando, hoje, como uma fechadura enferrujada, cuja chave já foi perdida há muito tempo. A bem da verdade, a chave está em algum lugar que até mesmo você sabe, mas não tem, você, vontade de se mover um passo que seja em direção a ela. E por isso permanece trancado, enferrujado, mesmo que tal ferrugem tenha aparência de sorrisos e meiguice, ah, essa meiguice sua que me tira o sono compulsivamente.

Estou pulguenta e sedenta agora. Tenho os braços arranhados e o rosto inchado. Não posso ir, ainda que me chamasse de novo.

Ah, se eu lhe pudesse ter enfiado a faca naquela ocasião, teria-a torcido e repuxado, bem a meu gosto. Teria preocupado-me comigo e meu prazer, e fazê-lo sentir cada puxada, cada fisgada. E ninguém teria o porquê de me cobrar depois. Mas sou boa demais para tal, e não consigo compreender-lhe os instintos masoquistas, tampouco conseguir-lhe-ia obrigar a algo. Como iria saber que era esse o desejo seu? Minha essência, esta, preservada tal como está agora, não foi o que lhe atraiu primeiramente? Não percebeu, você, que nada tenho de demoníaca? Deveria me sentir culpada por não ter?

Estou molhada agora. Estou suja e sedenta. Estou emputecida agora, meu rosto pende no escuro, pêndulo sou, e minhas risadas descabidas ecoam no universo. Meu sorriso ilumina todos os caminhos por onde você provavelmente anda agora. Sou um suvenir bem detalhado. Seu hiato me fez enlouquecer, caminho trançando as pernas agora e bebo leite no gargalo da caixinha. Não posso ir.

Setenta dias se passaram, esta tormenta permanece me consumindo como um oco. Mas oca não estou, pelo contrário, sou uma bucha velha e rasgada, absorvendo líquidos e sonhos à minha volta, esfregando chãos sujos à sua procura e deixando um rastro viscoso por onde passo. Não sei o que quero, e contigo não quero nada. Mas não deixo de ter suas fotos junto ao meu guarda-roupa e nem de perder alguns minutos da noite admirando-te o sorriso ingênuo. Este sorriso ingênuo de Augusto, perdido ou encontrado, mas Augusto somente. Sorrindo. Do outro lado, eu, sozinha. Eu, sozinha, sem Augusto.

E se você me convidasse agora, eu diria: estou vestida de ódio agora, não posso ir. Meus passos são pesados e magnetizarei tudo de você que se aproximar de mim. Estou em má hora, não sou boa companhia agora. Não posso ir.


Mas o jardim é florido e também tenho minhas deixas. Do meu alpendre, descalça, na ponta dos pés, tento me fixar na linha que o poente tece no horizonte. Passo um pente nos cabelos, uso vestido branco e rodo-o conforme o tempo balança. Sou simplesmente uma menina doce, com olhos em fúria. Da próxima vez que alguém me vier tirar da paz, é bom que tenha uma história de amor ou algo mais a oferecer em troca.




24 de junho de 2013

Augusto, Marília, ou apenas um deles, ou os dois ao mesmo tempo




“Não me declaro, mas não me contenho.”


Em noites quentes, abraços e ingredientes. Ele está lá, a vagar, ela considera, pensa, ela vê o que ele, distraído, apenas expira em forma de fumaça. Noite quente, tapetes e carícias. O sentimento velado é cuidadosamente acolhido, mas tudo pode desaparecer na manhã seguinte. Confortável amnésia? Não há lugar para re-sentimentos, tudo é tão puro que se passa como se não passasse, como se não existisse.

Augusto não cuida, Augusto acontece apenas. Como deve ser, ele diz, quando é natural. Marília repreende a si, não é calculista mas é como se fosse. Marília estuda, Marília teme, quase sofre, mas de repente estala e percebe que é exagero demais. Um balé descompassado, uma dança em salas escuras, mas os passos estão se encaixando, estranho, os passos não saem em falso. É melhor que o concerto não pare, pensa um deles – ou quem sabe ambos?

Esta casa está cheia de sal. Sal, sal, salve! Sala, quartos, banheiro, ela está cheia de si, ele é a própria beleza da juventude, salve! Esta casa está cheia de sal.

Se Marília definisse sua angústia em uma palavra, esta seria 'hiato'. Ela não fala por ele, mas com cigarro entre os dedos, reflete, conspira, repreende-se, quase se reprime, mas não, Que exagero!, brada em silêncio. Mas Augusto não percebe que há hiato, pensa ela por ele, porque sua vida é fluida e a barca rema em águas coloridas. O colorido é questão de ponto de vista, e Marília enxerga a vida por meio de óculos em preto e branco, que ela teima em chamar de maturidade, mas talvez seja isso apenas uma forma engessada de viver. Liberte-se, ela diz pra si. Augusto em silêncio. Mas e sobre o hiato?

Conforme passavam os dias, o hiato a fazia se sentir desmerecida por um sentimento que nem mesmo sabia afirmar se cultivava. Ela, que era ele também, e conservava uma postura serena e comedida, mesmo que um pouco ali fosse por esforço. E ele? Ele, que talvez não percebesse nada daquilo, pois vivia apenas, com toda a beleza de viver, e sem se atentar para as dimensões subterrâneas dos atos. Ou, se percebia, era um ótimo fingidor. Mas dela havia ele bebido um pouco e, da mesma forma, havia agora um 'algo' se insinuando por ali. Podia ser bom, podia não ser. Mas existia.

Em Marília, que também era Augusto, havia uma esperança que brotava cuidadosa, Esperança do quê?, ela se perguntava, enquanto regava a esperança e podava a angústia até quase reduzi-la a um talo. Não podia arrancá-la porque ambas compartilhavam a mesma raiz, e executar a angústia significava destruir para sempre qualquer esperança. Ela se sentava e desenhava em círculos, batia à máquina sem vontade, desconfiava de quase tudo, menos de seus passos largos: e em Augusto, que era Marília um pouco, talvez menos que ela o era, brotava o quê?

Difícil era largar-se ao tempo para tentar encontrar respostas para o que muito dificilmente seria perguntado. O balé era dançado em tempos diferentes, e o estranho disso tudo era como os passos, até então, eram dados no momento certo. E o medo de pisar um pé, de ir rápido demais ou cair na letargia e perder o movimento? Mas, claro, tudo isso podia ser uma tremenda duma besteira. O que começou de olhos vendados não precisa temer a falta de direção, pensava um deles. Quem?

E, claro, talvez Augusto nem existisse, aquele Augusto não. Só na cabeça de Marília. E, quem saberá?, Marília não passasse de uma fantasia delineada de Augusto, e que apenas de tempos em tempos fosse trazida à vida. E numa quarta-feira qualquer, quem ontem era Augusto amanhã seria Marília, e quem ia perceber?

A casa está cheia de sal. Sal, sal, salve! A beleza do acontecimento é que, de tão singelo, ele nem parece existir. Mas existe.






5 de junho de 2013

Contato




Meus sentimentos em aberto. Minhas emoções, pulsos eletromagnéticos que viajam galáxias. Percorrem o tempo. Minhas ideias me fecham, o coração explode, o peito se abre novamente. Revoluções por sensação, sentimento saciado, é vida, é vida, isto.

Meus sentimentos, sóis em combustão, iluminam meus próprios olhos, minha face clareada como que por uma fresta de luz, e um sorriso. O sorriso ninguém vê, guardo-o pra mim, mas os olhos abertos também sorriem e denotam o que ocorre logo abaixo. Doce música transcendental, percorre o oco do espaço, que alguns dizem ser matéria escura, outros o vazio imensurável de uma alma cujas esperanças foram perdidas. Mas eu sei, é vida, isto.

De um ponto a outro, traçados a esmo, a mesma solidariedade, a mesma bondade. Sentimentos em aberto, estes meus, conectam minha vida a pessoas que nunca vi com os tais olhos sorridentes, mas as sinto e elas vem, de outros cantos, de outras partes, de braços abertos a me apertar, e nesta fusão os corpos não importam mais, nem a distância, são sentimentos, sentimentos em aberto que ultrapassam a barreira entre planetas, que circulam energia por anos-luz e quantos mais. É energia pura, é vida, isto.

Sentimentos em aberto, trazem laços pré-escritos, completam e contemplam a completude, milagre primordial da vida, o encontro de mãos e a correspondência de sorrisos. Quantas pessoas no mundo e quantos mundos por descobrir, quantas radiações de amor chegarão até nós um dia nesta vida, e em outras, de lugares que jamais pensamos em conhecer? Sentimentos em aberto que jamais encontrarão o fim: o coração explode, o peito se abre novamente, revoluções a cada sensação.

Viva!


24 de maio de 2013

Quando chegar o fim


“Estou possesso. Não estou irritado, nem furioso. Estou possesso.”


Quando chegar o fim, quando chegar o dia do a deus, onde estaremos sentados? Quem virá ao meu auxílio, quem virá pedir meu abraço? A quem irei direcionar olhares desorientados que clamam por socorro? Fará sentido desesperar-se sozinho? Fará sentido não estar completamente entregue à solidão? Afinal, por que definições? Haveria meio de definir este cansaço mental, essa mão levantada por cima do lodo pantanoso? Quem está lá fora?

A cena é escura, a cena é profunda. Tudo será eco, mas não se pode precisar onde está a fonte. Por onde gritam, e por quê? Não fará mais sentido a gramática, nem meus papeis pendurados na parede, cuidadosamente emoldurados e improfanáveis até então. Mas tudo é profano, este solo é manchado de sangue. Quem não é? Vertigem, vertigem. Estarão todos em queda livre, mas quando é o fundo do poço? Qual o maior castigo para a mente infinitamente criativa? Pesadelos, o que são? Ruídos, ecos, ouvidos em explosão. O fim estará próximo, realmente?

Estaremos todos à deriva, esperando por um contato. As estátuas se movem, são bocas de pedra a palpitarem, mas o que dizem? As maiores se movem pelo pasto verde, tudo pode ser verde no fim, mesmo que a sequidão tome conta de nós por inteiro. Nenhuma lágrima escorrerá, a boca seca, a saliva encruada na língua, gosma. Quem pode se dar conta do fim quando o encara pela face?

De seus olhos saltam muitas cores, flashes pulsantes, é como o coração. Sangue pelo corpo, cores pelas mãos. Peles multicoloridas, estamos verdes, brancos, amarelos, verdes novamente. Quando o fim chegar, e se você estiver em sua sala, observando tudo pela tevê? Vejo muitas luzes, ele diz, mas não encontro resposta. Vejo muita claridade, mas o interruptor foi absorvido pela parede. E agora? A cena é escura, mas o que responder se a escuridão for, paradoxalmente, luzes derretidas escorrendo por suas paredes, tragando árvores, parque e gramas?

Quando o fim chegar, quem se levantará para acudir? Para onde correrão os bons, ou tais não passam de lendas que contamos, dia após dia, para podermos colocar a cabeça no travesseiro e conseguir ressonar? Você está numa cidade deserta, e o dia é muito claro. A luz te queima, penetra pelas pálpebras, mas o sol não está lá. Tudo é branco acima, e abaixo as pedras ardem. É um dia agradável apesar de tudo. Mas onde estarão todos? Você está numa praça deserta, há poucas árvores e um chafariz morto. Dentro, apenas folhas secas e luz. Olha para os lados, mas ninguém vem. E quando o fim chegar, quem sabe se ele não será uma completa clausura involuntária? Como anunciar que tudo está se acabando se não há quem possa ouvir? Talvez, por fim, você se resigna e senta no banco. E lá irá permanecer, solitário, à espera de um transeunte. E passarão séculos. E mais quantos outros séculos passarão até que possa perceber que essa é, em verdade, sua danação.

Quando o fim chegar, poderá tudo escurecer-se, e haverá outras cores, cintilantes. Tudo cintila, num universo de dimensões e propósitos sempre discretos demais. Quando enlouquecer, quando deitar-se ao chão e cravar as unhas na terra, quem saberá? A cena é profunda, mas a luz é alva. Há gritos no céu, mas são sons sem boca. Há uma alvura angelical, mas te queima e tudo é escuro ainda.

Estamos todos à deriva, ávidos pelo contato.



9 de maio de 2013

O espelho (ou Dia de redenção)



I

Começou cedo o dia, com um bandolim tocando à porta, mas ninguém queria entrar, não. Era um desses viajantes aí, que vivem a vida como se amanhã fosse a morte. Desses aí, que festejam sem esperar que a alegria seja recompensada. Porque tem gente que é assim, né? A alegria se estampa no rosto, mas não é ela de verdade ali. É um disfarce, inconsciente, talvez, como que se o seu uso fosse atrair alguma felicidade mais... sólida. Deixemos os fingidores de lado. E os festejadores também. Em resumo, o dia começou com um bandolim tocando à porta, freneticamente, mas logo sumiu, foi seguir o caminho.

Depois, o cheiro do café. Não vinha dali, daquela cozinha, visto que, além do vivente que agora acordava, ninguém mais habitava a casa. Vinha doutras cozinhas, talvez um apartamento, da sala de espera do consultório odontológico duas casas ao lado. Da sua cozinha, não. Uma vez desperto, contudo, tratou ele também de fazer o seu próprio. Coçava a barba, o cabelo espetado, desesperançoso de um corte ou um pente que fosse, o rosto ainda abobado de sono. E o café coando.

O sol atravessava ardente as janelas da cozinha e da copa, mesmo que fossem ainda oito da manhã. Oito da manhã, oito da manhã. Em tempos não muito distantes, já estaria na lida a estas horas, conversando, trabalhando, fazendo valer a manhã. Mas não agora. Agora, pelo contrário, oito da manhã era cedo demasiado. E era estranho que o sol estivesse tão forte tão cedo. O contraste da luz com a fumaça do cigarro recém aceso tornava a imagem do cômodo densa, espessa. Dormia de blusa de frio, naquele tempo de início de inverno. O frio lhe castigava tudo, inclusive os pés. Blusa de frio e cuecas, era tudo o que costumava vestir durante as noites. Largou o cigarro no cinzeiro pra poder lavar uma xícara.

O tempo pode mudar tudo, ainda que nem mesmo um metro seja percorrido. O tempo mudara muitas coisas. Do fundo do sofá recoberto de colchas, colocadas ali mais para disfarçar o envelhecimento do móvel que pra qualquer outra coisa, ele dobrava compulsivamente as pontas das mangas da blusa azul-marinho-gasto, isso que era uma mania recém-adquirida. O ócio nos faz adquirir manias. E medos. Quando não ocupava os dedos com este artesanato infrutífero, ocupava-os na boca, a cortar as cutículas com os dentes, ou com o segurar do cigarro, da alça da xícara. Ali, no sofá, de pernas cruzadas e olhar abstraído, ainda conseguia se sentir um deus. Meio decaído, mas um deus.

Não era o fracasso que lhe preocupava. Talvez fosse, talvez, mas não dentro do que ele percebia como seu mundo de agora. Não era fracasso o nome daquilo. Era um êxtase infindável, mas que de interminável tornou-se cíclico. Como as lágrimas, como o olhar que vagueava em busca de sentidos. Sentidos. Não se tratava de morte, nem de sensações físicas. Se era morte era antes um falecimento do espírito. Sentidos. Olhar lânguido, quase bêbado. Fumaça, odores, panos velhos, sentidos. Cíclico.

O tempo se tornava cada vez mais abstrato. Podia ser medido em relógios, e havia muitos em paredes variadas, alguns fora do horário, alguns sem pilha. Podia ser medido pelas folhas do calendário da padaria, distribuído como brinde todos os finais e inícios de ano. Mas eram todas medições abstratas. Porque só se mede a passagem do tempo em situações concretizadas. Mede-se pela intensidade imprimida na vida. Não, não se conta o tempo em dias ou anos, mas em vitórias, em eras de bonança e, inevitavelmente, em períodos de desgraça. O tempo se tornava abstrato para o vivente daquela casa. E, no mais, a única coisa que lhe sobrava fazer era literatura barata.


II

Depois da tormenta, o céu limpo não veio. Foi-se-lhe a mãe, o emprego e, com este último, a promessa de uma carreira mais sólida, que parecia já conquistada e se desfez em pó. Estava perdido como cão sem dono, e o dinheiro escasseava. Ele estava preso ao passado, preso àquela casa vazia, que, com ele ali, com este novo ele, era mais vazia que se desabitada fosse. Foi tormenta caída duma só vez, e a ventania dolorosa o dobrou. Agora, mais que o dinheiro, que os laços parentais, que a rotina do trabalho levado por mais de nove anos, por pouco dez, fora-lhe embora o sentido. E com o sentido, o sono, o senso de tempo, os motivos para pensar as oito horas da manhã como meia-idade da manhã. Esvaiu-se tudo. Tinha manias agora, manias e literatura barata.

- Quem sou eu!?, bradou numa noite, desesperado, com os cabelos alvoroçados, olhos em fúria, olhando pela janela. Ele, que se perdera onde dificilmente alguém poderia o encontrar. Perdera-se em si. Apontava os braços para cima, como que se esperasse alguém para levá-lo, para mostrar algo. Ele perdera-se por completo. A dor do outro é sempre alguma coisa distante, é sempre alguma coisa sintética para nós. A depressão é como uma porta. Desavisado, invariavelmente se caminha em direção a ela. Não é convidativa, não é esclarecedora. Mas há algo de involuntário ali. A porta estabelece-se diante de ti e, duma ora para outra, é o único caminho possível.

- Quem sou eu!?, gritou novamente. Não estava mais na janela. Estava parado, sentado na beira da cama, cotovelos sobre os joelhos. Olhava conflitante o espelho, via seu próprio conflito naqueles olhos acastanhados, rebuscados, enervados.

- Quem és tu? Quem és tu, meu caro?, respondeu o espelho, falando pelo reflexo, e era como uma resposta que partia de seu interior. Ou não?

Aquela resposta, em forma de pergunta, era retórica, no mínimo. Pois que o espelho o acompanhava há quase uma década, foi comprado com seu segundo salário quando assumira o cargo de editor. O espelho, indubitavelmente, sabia de tudo. Porque grande parte de sua vida, ou ao menos dos picos dela, passou-se naquele quarto. O espelho a tudo via. E, quem sabe, por que não?, a tudo ouvia também. Era, então, uma provocação? Era um auxílio?

- Fui eu quem falou isso?

- Depende. Olhe pra mim, o que tu vês? Tu? Eu?

O homem enxergava tudo aquilo desconfiado. Cruzou as pernas sobre a cama e firmou o olhar. O reflexo o acompanhava instantaneamente em todos os movimentos.

- Não me importa realmente se fui eu ou não. Não sei quem sou e pouco tem me importado lembrar que seja meu nome.

- Porque não é mais teu nome, decerto. Ou porque, talvez, tu já estejas deteriorado nesta casa e não passes de um fluido, de um vapor condenado a vagar. Tu, não sabendo mais da própria história, a mim desabilita, e nem sei mais se reflito alguma coisa.

- Ou se sou eu mesmo o próprio reflexo, perdido sem um referente a fazer menção.

- Olhe para esta merda de vida. Esta existência medíocre que tu lutas a todos os momentos para fazer continuar. Não tens mais sentido algum, vagas pela casa, mofo!, mofo és tu, agora.

E lágrimas caiam da face dele, ainda tentando não se abater.

- Chega! Chega! Não quero mais ouvir, não quero saber de nada. De nada!

- Mas se és tu quem fala, que posso fazer? Não percebeste que te acusas, a ti, a ti mesmo? Eu não falo, jamais falei-te uma palavra sequer. Tua mente fala, e tu escutas estas vozes porque estás perdido dentro de um calabouço. Tornaste-te um febril, não consegues mais desvencilhar-te das vozes que ecoam aí. Quem és tu, quem és? Responda-me, para que eu não pense que enlouqueci e estou falando com o vento.

- Por que me mutilas assim? Por que eu te ouço ainda, demônio? Por quê? Por que eu não arrebento essa casca, essa doença, por quê?

- Por quê?

- Porque eu não sei onde estou. Por que eu não sei onde estou?! Que foi feito de meus planos juvenis, que foi feito das minhas ideias?

- Tu as perdeste. Tu te esqueces de que o tempo não para jamais, é ele quem te engole, pouco a pouco tu sucumbes a ele. Perdeste teu tempo a procurar pelo futuro e o futuro não te chegará jamais. Ou podes ainda considerar que é este o teu futuro; é isto que tu sonhavas?

Ele torcia os dedos, estalava-os nervosamente, fumava, tossia, fumava, apertava as têmporas. Chorava como uma criança a quem lhe houvessem tomado o brinquedo.

- Como te foi levada a mãe? Como passaste os últimos anos com ela? E os amigos teus, homem? Foi por incompetência que perdeste o trabalho?

- Incompetência...

- Trabalhaste por uma década para aquela porra de jornal pra não conseguires um merecimento além da demissão? Que vida ingrata.

A demissão, a mãe, os esporros, as noites sem dormir, os desgastes amorosos pela falta de horário, a mesquinhez a que fora se acometendo, as unhas amareladas, o espírito amofinado que se sobressaíra após tantos anos e que o vencera, enfim. Era agora aquele ali, escritor frustrado, solitário de si mesmo. E a solidão é um monstro que nos abraça, sem que possamos tomar ciência. Tapa-nos os olhos até que nos acostumemos e, !, parece que foi sempre assim, não? Quem, afinal, reconhece-se em si, em si somente, longe de outros e de seu próprio reflexo? Quem sabe quem é sem necessitar de limites sociais, sem se medir pela ação do outro?

Não se sabe exatamente qual foi o destino do nosso homem. Há quem diga que ele tenha se matado, embora morto já estivesse. Outros, que ele se consumiu frente ao espelho, tornando-se indistinguível de seu reflexo. O certo é que jamais saiu daquela casa.