28 de junho de 2017

Com doce voz

Ao som das batidas
Vou lhe contar uma história jamais contada

No compasso dos acordes
Maravilhas serão entoadas de minha garganta

Pálida história, que jamais viu a luz do sol
Medos tristonhos, escondidos no íntimo meu

Não precisaremos de fogueira, jogos ou pretextos
Para queimar a culpa até que se respire


Alívio



6 de junho de 2017

Passada rasteira

[N.A.] Maria pegou o chicote, estalou no lombo
É hoje, levanta a meia, amarra os cadarços,
Que chegou o dia



Da ponta donde vejo a ponte, está meio a meio, prestes a cair no precipício
Mas se salva como que por um fio úmido e transparente
Minha inocência se vai viajando, de braços e mãos a velejar
Um mar sereno que tranço com meus cabelos e fecha minha visão

Dali onde eu posso me postar, estou caído sobre farelos dourados, castanhas a brilhar
Dançando uma ciranda sem ninguém ver meus passos, inventando que tenho o compasso
E olho por cima do ombro, jogando charme ao léu, imaginando que alguém me veja
Da outra ponta de onde me ponho, onde só estrelas há, e com isso a paz que brota no meu coração

Sinto transparência dos sabores que me perpassam pelos lábios, sorrindo
E a doce melodia das folhagens, que acariciam meu rosto sedoso, pois que é feito de memórias
O melhor observador é inexistente, e por isso inigualável – ele olha conforme meu gosto
A sanfona que toca imprime o bater dos meus pés, que dão nós e os desatam, impossíveis, impossíveis

Cresce por detrás de mim o farfalhar das páginas, com elas os dias, os meses e as falhas
Eu enxergo por vários prismas, sento e me admiro com o que meus olhos, geniosos, contam-me
Eu vejo a família crescer, eu festejo o desabrochar da vida em cada pequeno ser, eu me orgulho
Na fila que eu deixo trilhada, sem que seja responsável, ouço palmas e ritmo a (me) vibrar

Da moita que balança aos anéis dos quais já me soltei, pulso um forró natural, pés na terra, poeira levantada
Minha inocência vai me acalentando, já sou santo não beatificado, mas sei o valor de minha intercessão
As sobrancelhas escuras dão a gravidade que a mão, leve, não tem, e executo a reza bem feita

O que vem após a dobra da janela, o que nos espera após aberta a porta, é preciso viver pra saber



15 de fevereiro de 2017

Mariposa

[N.A.] Estou sinceramente obcecado com o silêncio dentro de minha cabeça. Ouço distante e vejo longe, revelam-se fantasmas e flores que estavam cobertos pelos destroços.



Pego de uma toalha pois precisava limpar minha face lambuzada, arrasada. Mas nem tanto. Não me quebraram os pés ou pernas, e embora um tanto quanto manco, saio e olho, com olhos curiosos, para cima. Tormenta interminável, céus nebulosos, atmosfera ríspida. Tudo havia passado.

Sobraram cicatrizes em meu rosto, cigarros mal terminados no cinzeiro e um resquício de perfume que, se um dia já me alegrou as manhãs, agora espero extirpar com a luz forte que invade as janelas e que desce suntuosa pelo teto. Há luz em minha expressão.

Estive calado por tempos intermináveis, que só podiam ser verificados em meus olhos outrora úmidos e vazios. Como numa tumba, passei o que aqui dentro foram eras entoando cânticos a quem, quem?, não os poderia ouvir. E se estava em minhas mãos, em todo o tempo, a chave para inverter esse sarcófago, faltou-me tato para manuseá-la.

De noite, olho-me no espelho. O que vejo é resultado da falta de uma digna consideração sobre mim mesmo? Desfiz-me já das pulseiras, dos colares, dos anéis. Quero-me nu, completamente, de todas as ataduras que carreguei. Sem o peso, sem o temor, facilmente saem sorrisos de lábios ainda muito bem conservados, que guardam-se para o beijo no próximo cigarro, e do outro que ainda vem.

E o sangue que escorreu da face agora cicatrizada, para onde foi? Quando ponho-me sobre os prédios, abraçado às minhas próprias pernas dobradas, em diálogo com a fria neblina da madrugada, ainda não encontro os vestígios que deveriam ter riscado o chão tanto quanto o fizeram ao redor dos meus olhos. Permanecerá, portanto, apenas a minha última afirmação, quer seja somente um desejo acobertado de sabedoria, de que nada foi em vão.

Com tanto brilho saindo do olhar de agora, prevejo que tenha de usar óculos escuros para não ofuscar outras faces. Estendo, dia após dia, os pés para fora da cama, inundado de uma interminável manhã, e contemplo meu próprio despertar. Arrebentei o casulo.