13 de julho de 2026

R, de Michael


[Nota do autor: esta é uma carta nunca entregue, reescrita e reimaginada com um realismo que agora insiste em ser notado. Tudo aqui é verdade ou ficção, a depender das circunstâncias]




Se eu te encontrasse


Eu pararia no tempo, o tempo, por um instante
Eu procuraria, desesperadamente, o corrimão onde apoiar minhas mãos,
Trêmulas

Eu engoliria seco
Eu dilataria minhas pupilas
Eu desviaria o olhar por um breve segundo,
Um segundo mais breve que um segundo, para que sua imagem não desaparecesse do meu campo de visão

Eu titubearia

Eu ergueria, com ressalvas, minha mão direita, numa trajetória de passagem pelo ar, num cumprimento contido
Eu ergueria, com muitas ressalvas, os cantos dos lábios, esboçando um sorriso que se desvaneceria no ar

Os olhos, fixos
Os olhos, assustados

Eu caminharia em sua direção, com passos totalmente descompassados
Eu tentaria simular elegância
Eu chegaria perto sem saber o que fazer
Eu pararia por um instante, mesmo já estando parado o tempo desde o primeiro olhar

Eu esperaria

Eu tremeria a garganta, e a lágrima se formaria na borda inferior dos olhos,
Fixos
As maçãs do rosto, rijas, meu coração em sobressalto
Eu esperaria por um sinal da sua boca
Eu estaria pronto para desviar para o lado como há muitos anos aconteceu, e evitar o fracasso da minha noite

E então, talvez, 



Se eu te encontrasse e você me encontrasse


Você abriria um sorriso
E eu veria novamente seus dentes, perfeitamente alinhados como eram
Eu tomaria sua mão com a minha
E, ainda parado, parado o tempo desde o início, olharia seus dedos, entrelaçando-se nos meus
Apertaria, apertaria como me apertou aquela indiferença, naquele triste passado

Eu fitaria, com a visão turva, encharcada, como um parabrisas em dia de temporal,
Seus olhos

Eu não precisaria falar, nem fazer mais um pedido de desculpas
Se seu sorriso se abrisse,
Eu iria saber, você iria saber, pelas maçãs trêmulas do coração fitando os seus olhos mordendo os lábios apertando as mãos chegando perto da boca
Que minha redenção havia finalmente chegado

Eu passaria minhas mãos pela sua cintura
Eu te abraçaria
E, nesse momento, o tempo voltaria a correr

Eu te beijaria no escuro, como eram aqueles beijos de tanto tempo atrás
Sem culpa, sem escrúpulos, sem pausas, sem controle, sem suavidade
A fusão incontrolável de espíritos, o pescoço em risco, os dentes, a pele succionada, as marcas, a língua, os lábios, a saliva, sem culpa, sem pausas

E nesse momento, meu coração se realinharia com minha respiração, meu rosto relaxaria pela primeira vez, e eu me desmancharia
Sobre você, em você, com você

Eu teria uma noite suave
Uma noite tão suave
Uma noite inteira
Uma noite que não me lembro mais como é
E nas horas que se passassem, iria retomar suas palavras de outrora
Iria dizer que, agora te reencontrando, não quereria te perder

E a cada vez que dissesse, entrelaçaria novamente meus dedos nos seus
E apertaria sua cintura como um espartilho antigo
O coração, de novo, pedindo um desfibrilador
E os lábios se tocando, suavemente, agressivamente, desmedidamente

E, aí, decididamente, de uma vez,



Se eu te encontrasse, se você me encontrasse, e vivêssemos o que não vivemos


Eu me reencantaria com suas manias
Eu me encantaria com suas manias que nunca tive chance de conhecer
Eu permitiria a você reclamar do cigarro
Eu te ouviria em francês
Eu te levaria a todos os lugares
Eu te apresentaria
Eu te faria se sentir um monumento
Eu te colocaria no altar que você sempre mereceu

Por um breve, talvez não tão breve, talvez mais longo que breve, instante


E então, o vampiro acordaria

Eu me levantaria numa terça-feira, ou sábado, sem aviso prévio,
Preso
Perdido
Tragado pela monotonia

Eu me cansaria das mesmas reclamações
Eu acenderia um cigarro onde me fosse conveniente
Quando me fosse conveniente

Eu torceria as entranhas pela rotina
Eu condenaria a monogamia
Eu olharia para os lados
Eu veria outros e gostaria do que visse
E por querer ver outros, me lembraria das suas imperfeições que me incomodariam
E, por ver outros, me lembraria das chateações que você me traria por conta das minhas imperfeições que te incomodariam

Eu relutaria
Eu adoeceria
Eu iria me amargurar
Eu te daria fel

Eu entraria em luto por ter matado você, monumento, idealizado, em mim
Eu entraria em luto por ter estado contigo mais do que deveria
Eu entraria em luto por não ter partido e por não ter querido partir


Por isso,
Porque é esta a minha natureza,
Eu me resignei em viver sem ter a doçura e a agrura

De te ter entregue esta carta



Noite Estrelada Sobre o Ródano, de Vincent van Gogh

14 de março de 2026

Pela eternidade ou por você eu venderia minha alma

 


[N.A.: Você é meu elo infinito com o infinito.]



Foi quando pela primeira vez tive entre as minhas as suas mãos. Percebi: o tempo é implacável. Foi quando beijei sua pele. Pelo êxtase, senti: o viço é passageiro. Foi quando acariciei suas coxas e meu toque te levou àquele torpor incalculado: esses calos não estavam aqui antes. Fora do script, um roteiro que não vi entregarem.

A eternidade é um desejo ardente daqueles que vivem com ânsia de viver. Todos os dias possíveis não são o suficiente para experienciar toda a existência. Uma linha tênue separa aqueles que, ao contrário de mim, se preparam toda a vida para não envelhecer. É paradoxal. O tempo é ingrato com quem, na imperiosa necessidade de detê-lo, usufrui seus minutos libertinamente.

Quando se olha no espelho todos os dias, pequenas mudanças são pequenas demais. Elas não te estragam a manhã, elas estão escondidas no cotidiano que nos afoga. A peça pregada pelo tempo é sua passagem em conta-gotas. “Envenena-te como um cigarro”, diriam os que teimam em me fazer acreditar que a fumaça me mata pouco a pouco. Essa mesma que leva fragmentos de mim para o intangível etéreo.

A eternidade é um desejo ardente daqueles que são vaidosos. Não se enrugar, não perder a rigidez, não aparentar viver o que viveu. Mas, em si, contar como glórias passadas todas as labutas, as vitórias, as tempestades. A eternidade é, também, um desejo de poder contar, para si, tudo o que viveu, mas estando em pé para vivê-lo novamente. Com viço.

O tempo é implacável, eu percebo quando o hiato entre me satisfazer e te satisfazer se dilata. Quando fito seus olhos de fúria, quando me queimam suas íris incandescentes, eu, que fagulho vez ou outra, que me permito lampejos intervalados. Você não sabe que sua brasa me revive.

Fora do script, um roteiro que não vi entregarem. Como tantos anos se passaram desde a última vez em que tomei consciência dos zeros diminuindo no calendário? Onde eu estive enfiado por todos estes dias? Eu me diverti? Eu estou realmente vivendo todo este tempo? Eu viverei o suficiente para descobrir se todos esses meus passos, que se repetem e repetem, serão um olhar melancólico para trás?


Como tantos anos se passaram entre eu e você?


Uma linha tênue separa aqueles que, ao contrário de mim, se preparam toda a vida para não envelhecer. Os que se conservam para o amanhã, e estarão lá, invictos, quando cinquenta, sessenta anos baterem à porta. Estarei, eu, em farrapos? E se, por ironia, passarmos por aqui um igual número de acordares? Estarei respirando tão leve quanto os que nunca dormiram arfando?

A eternidade é mais próxima de quem vive o que há, tão logo se desenrola esta vida, ou de quem a guarda para saboreá-la aos poucos? 


Você é meu elo infinito com o infinito. Sentir seu hálito, tão estreante da rotina massacrante de um dia a dia do que se pretende ser adulto, é um frescor que acaricia meus olhos levemente enrugados. Em doses homeopáticas, guardando surpresas agradáveis, é sua doce intemperança adolescente que desfibrila meus dias acostumados com a calmaria da mesmice. É entre seu peito, é no calor da sua virilha que reside a eternidade? Eu bebo seu elixir para me manter faiscante. Com viço.

Estou apontando na direção correta, estou?


Quando a ponta dos meus dedos percorrem seus lábios, essa pura seda, eu percebo - o tempo é implacável. Quando meus lábios eram seda também, quando meu furor era orgânico do meu íntimo, o que eu sentia? Como tantos anos se passaram entre lá e agora? Quem me empurrou para esse redemoinho? Quando toda essa estrada, tão e tão longa adiante, passou a se perder de vista no retrovisor? Meu Deus!


Esses calos não foram planejados. Estes anos entre eu e você, um escândalo. Essas ruminações, este desejo de vender a alma agora. Fora do script, um roteiro que não vi entregarem.