Se eu te encontrasse
Eu pararia no tempo por um instante
Eu procuraria, desesperadamente, o corrimão onde apoiar minhas mãos,
Trêmulas
Eu engoliria seco
Eu dilataria minhas pupilas
Eu desviaria o olhar por um breve segundo,
Um segundo mais breve que um segundo, para que sua imagem não desaparecesse do meu campo de visão
Eu titubearia
Eu ergueria, com ressalvas, minha mão direita, numa trajetória de passagem pelo ar, num cumprimento contido
Eu ergueria, com muitas ressalvas, os cantos dos lábios, esboçando um sorriso que se desvaneceria no ar
Os olhos, fixos
Os olhos, assustados
Eu caminharia em sua direção, com passos totalmente descompassados
Eu tentaria simular elegância
Eu chegaria perto sem saber o que fazer
Eu pararia por um instante, mesmo já estando parado o tempo desde o primeiro olhar
Eu esperaria
Eu tremeria a garganta, e a lágrima se formaria na borda inferior dos olhos,
Fixos
As maçãs do rosto, rijas, meu coração em sobressalto
Eu esperaria por um sinal da sua boca
Eu estaria pronto para desviar para o lado como há muitos anos aconteceu, e evitar o fracasso da minha noite
E então, talvez,
Se eu te encontrasse e você me encontrasse
Você abriria um sorriso
E eu veria novamente seus dentes, perfeitamente alinhados como eram
Eu tomaria sua mão com a minha
E, ainda parado, parado o tempo desde o início, olharia seus dedos, entrelaçando-se nos meus
Apertaria, apertaria como me apertou aquela indiferença, anos atrás
Eu fitaria, com a visão turva, encharcada, como um parabrisas em dia de temporal,
Seus olhos
Eu não precisaria falar, nem fazer mais um pedido de desculpas
Se seu sorriso se abrisse,
Eu iria saber, você iria saber, pelas maçãs trêmulas do coração fitando os seus olhos mordendo os lábios apertando as mãos chegando perto da boca
Que minha redenção havia finalmente chegado
Eu passaria minhas mãos pela sua cintura
Eu te abraçaria
E, nesse momento, o tempo voltaria a correr
Eu te beijaria no escuro, como eram aqueles beijos de tanto tempo atrás
Sem culpa, sem escrúpulos, sem pausas, sem controle, sem suavidade
A fusão incontrolável de espíritos, o pescoço em risco, os dentes, a pele succionada, as marcas, a língua, os lábios, a saliva, sem culpa, sem pausas
E nesse momento, meu coração se realinharia com minha respiração, meu rosto relaxaria pela primeira vez, e eu me desmancharia
Sobre você, em você, com você
Eu teria uma noite suave
Uma noite tão suave
Uma noite inteira
Uma noite que não me lembro mais como é
E nas horas que se passassem, iria retomar suas palavras de outrora
Iria dizer que, agora te reencontrando, não quereria te perder
E a cada vez que dissesse, entrelaçaria novamente meus dedos nos seus
E apertaria sua cintura como um espartilho antigo
O coração, de novo, pedindo um desfibrilador
E os lábios se tocando, suavemente, agressivamente, desmedidamente
E, aí, decididamente, de uma vez,
Se eu te encontrasse, se você me encontrasse, e vivêssemos o que não vivemos
Eu me reencantaria com suas manias
Eu me encantaria com suas manias que nunca tive chance de conhecer
Eu permitiria a você reclamar do cigarro
Eu te ouviria em francês
Eu te levaria a todos os lugares
Eu te apresentaria
Eu te faria se sentir um monumento
Eu te colocaria no altar que você sempre mereceu
Por um breve, talvez não tão breve, talvez mais longo que breve, instante
E então, o vampiro acordaria
Eu me perderia na monotonia
Eu me cansaria das mesmas reclamações
Eu acenderia um cigarro onde me fosse conveniente
Quando me fosse conveniente
Eu torceria as entranhas pela rotina
Eu condenaria a monogamia
Eu olharia para os lados
Eu veria outros e gostaria do que visse
E por querer ver outros, me lembraria das suas imperfeições que me incomodariam
E, por ver outros, me lembraria das chateações que você me traria por conta das minhas imperfeições que te incomodariam
Eu relutaria
Eu adoeceria
Eu iria me amargurar
Eu te daria fel
Eu entraria em luto por ter matado você, monumento, idealizado, em mim
Eu entraria em luto por ter estado contigo mais do que deveria
Eu entraria em luto por não ter partido e por não ter querido partir
Por isso,
Porque é esta a minha natureza,
Eu me resigno em viver sem te ter, te tocar e te ver
Por isso
Eu nunca te entreguei esta carta
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