15 de fevereiro de 2017

Mariposa

[N.A.] Estou sinceramente obcecado com o silêncio dentro de minha cabeça. Ouço distante e vejo longe, revelam-se fantasmas e flores que estavam cobertos pelos destroços.



Pego de uma toalha pois precisava limpar minha face lambuzada, arrasada. Mas nem tanto. Não me quebraram os pés ou pernas, e embora um tanto quanto manco, saio e olho, com olhos curiosos, para cima. Tormenta interminável, céus nebulosos, atmosfera ríspida. Tudo havia passado.

Sobraram cicatrizes em meu rosto, cigarros mal terminados no cinzeiro e um resquício de perfume que, se um dia já me alegrou as manhãs, agora espero extirpar com a luz forte que invade as janelas e que desce suntuosa pelo teto. Há luz em minha expressão.

Estive calado por tempos intermináveis, que só podiam ser verificados em meus olhos outrora úmidos e vazios. Como numa tumba, passei o que aqui dentro foram eras entoando cânticos a quem, quem?, não os poderia ouvir. E se estava em minhas mãos, em todo o tempo, a chave para inverter esse sarcófago, faltou-me tato para manuseá-la.

De noite, olho-me no espelho. O que vejo é resultado da falta de uma digna consideração sobre mim mesmo? Desfiz-me já das pulseiras, dos colares, dos anéis. Quero-me nu, completamente, de todas as ataduras que carreguei. Sem o peso, sem o temor, facilmente saem sorrisos de lábios ainda muito bem conservados, que guardam-se para o beijo no próximo cigarro, e do outro que ainda vem.

E o sangue que escorreu da face agora cicatrizada, para onde foi? Quando ponho-me sobre os prédios, abraçado às minhas próprias pernas dobradas, em diálogo com a fria neblina da madrugada, ainda não encontro os vestígios que deveriam ter riscado o chão tanto quanto o fizeram ao redor dos meus olhos. Permanecerá, portanto, apenas a minha última afirmação, quer seja somente um desejo acobertado de sabedoria, de que nada foi em vão.

Com tanto brilho saindo do olhar de agora, prevejo que tenha de usar óculos escuros para não ofuscar outras faces. Estendo, dia após dia, os pés para fora da cama, inundado de uma interminável manhã, e contemplo meu próprio despertar. Arrebentei o casulo.





2 comentários:

Bruna Fortunato disse...

O despertar de um homem é sempre sublime. Lindo de se ver, enebriante de se conviver.

Jaque disse...

O passado é importante pra gente valorizar a pessoa q nos tornamos, o q as nossas experiências nos ensinaram. Mas agora é um novo tempo... abre as asas e contempla a paisagem de cima. Se vc tá feliz, faz feliz quem te ama!