14 de agosto de 2010

A agulha do bom senso

i. agulhadas

Perfurando meus intestinos, e as vísceras mortais mais profundas,
Agarra-me pela garganta, suga-me o ar e me puxa para baixo
Noites imundas

A verdade está além do que pode ser observado
Mas machucamo-nos uns aos outros sem nos dar conta
Uma a uma as lanças são lançadas, e ainda estamos olhando para o outro lado
Procurando um sinal de bênção no céus

A Terra abaixo de nós se dissolve, o dia ilumina nossa face cansada
Linhas e marcas de expressão de tempo desperdiçado
Os olhos fundos de lágrimas, a mancha negra percorre o rosto
Desfigurados estamos, preparando-nos para o fim terrível

Oh bom senso que me foge, deixa-me regado de gozo, de prazeres findáveis
Minha imagem se desfaz perante os demais, minha alma se macula
Maculados também os sentimentos dos demais à minha volta, usados como marionetes
Mas não sou eu, oh, não sou eu o maldoso ventríloquo [será a situação? será a (im)possibilidade de ação?]


ii. sentimentos retraídos, contraídos

Como todos os outros dias, caiu a noite
Passos distantes, motores invocados por divindades, as máquinas já não são as mesmas
Cavalgando em galopes díspares, uns mais adiantados, outros mais benevolentes (?)
É a hora do ajuste, é a hora

Como se tudo tivesse se tornado normal
Trocamos beijos e parceiros por outros beijos de parceiros dos primeiros
Na vil imoralidade da carne
Sentimentos traiçoeiros se desesperam, traídos, re e contraídos

No epicentro dessa grande evolução, essa revolução esbranquiçada e pegajosa
O problema está além do que se obtém ao fim do convencional
Porque nada mais aqui é natural
Bandejas repletas de peças plásticas (vamos atender ao desejo de todos!)

Os preços não se sustentam, o valor abaixa, abaixa também um milheiro de cuecas
Vermelhas, brancas, amarelas
Jogadas ao chão sistematicamente

É a festa da quantidade
Quanto mais for absorvido mais chances temos de sair nos tablóides de amanhã
A sucção ilimitada não pode ser contida, não deve ser parada
Peças humanas, envernizadas e retocadas, jogadas ao chão
Usadas, muito provavelmente não terão mais outra serventia (é essa cultura de novidades)

Mas amanhã, no outro dia
Os restos mortais estarão bem visíveis
Para quem quiser ignorar a festa da hipocrisia, a queda dos valores
O império irá se desmoronar




iii. acerto de contas

Quando baixou o terceiro cetro
E o ordenado se cumpriu
Milhares de almas queimadas vivas
As etiquetas apagadas - perderam seu valor

Permitiram-se demais, a individualidade se perdeu
Não se trata de promiscuidade, é a simples equação da quantidade
Ataques por minuto, beijos por piscar de olhos
Uma mão aqui dentro, a outra lá fora
E fez se a alegria, por ora

Mas a lança certeira os cortará
Decepando-lhes as cabeças, troféus desmerecedores do título
E os olhos se abrirão novamente
Cessará a plasticidade
As ranhuras das mãos voltarão a serem percebidas
Os contornos dos olhos reluzirão, como os sorrisos
Um detalhe, uma pinta, um formato de unha, uma cicatriz de cotovelo

Iluminadas as casas, as épocas e os caminhos
Voltaremos a integrarnos num grande coletivo,
Sem que haja a perda da nobreza de nosso caráter

Amém.

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