24 de maio de 2013

Quando chegar o fim


“Estou possesso. Não estou irritado, nem furioso. Estou possesso.”


Quando chegar o fim, quando chegar o dia do a deus, onde estaremos sentados? Quem virá ao meu auxílio, quem virá pedir meu abraço? A quem irei direcionar olhares desorientados que clamam por socorro? Fará sentido desesperar-se sozinho? Fará sentido não estar completamente entregue à solidão? Afinal, por que definições? Haveria meio de definir este cansaço mental, essa mão levantada por cima do lodo pantanoso? Quem está lá fora?

A cena é escura, a cena é profunda. Tudo será eco, mas não se pode precisar onde está a fonte. Por onde gritam, e por quê? Não fará mais sentido a gramática, nem meus papeis pendurados na parede, cuidadosamente emoldurados e improfanáveis até então. Mas tudo é profano, este solo é manchado de sangue. Quem não é? Vertigem, vertigem. Estarão todos em queda livre, mas quando é o fundo do poço? Qual o maior castigo para a mente infinitamente criativa? Pesadelos, o que são? Ruídos, ecos, ouvidos em explosão. O fim estará próximo, realmente?

Estaremos todos à deriva, esperando por um contato. As estátuas se movem, são bocas de pedra a palpitarem, mas o que dizem? As maiores se movem pelo pasto verde, tudo pode ser verde no fim, mesmo que a sequidão tome conta de nós por inteiro. Nenhuma lágrima escorrerá, a boca seca, a saliva encruada na língua, gosma. Quem pode se dar conta do fim quando o encara pela face?

De seus olhos saltam muitas cores, flashes pulsantes, é como o coração. Sangue pelo corpo, cores pelas mãos. Peles multicoloridas, estamos verdes, brancos, amarelos, verdes novamente. Quando o fim chegar, e se você estiver em sua sala, observando tudo pela tevê? Vejo muitas luzes, ele diz, mas não encontro resposta. Vejo muita claridade, mas o interruptor foi absorvido pela parede. E agora? A cena é escura, mas o que responder se a escuridão for, paradoxalmente, luzes derretidas escorrendo por suas paredes, tragando árvores, parque e gramas?

Quando o fim chegar, quem se levantará para acudir? Para onde correrão os bons, ou tais não passam de lendas que contamos, dia após dia, para podermos colocar a cabeça no travesseiro e conseguir ressonar? Você está numa cidade deserta, e o dia é muito claro. A luz te queima, penetra pelas pálpebras, mas o sol não está lá. Tudo é branco acima, e abaixo as pedras ardem. É um dia agradável apesar de tudo. Mas onde estarão todos? Você está numa praça deserta, há poucas árvores e um chafariz morto. Dentro, apenas folhas secas e luz. Olha para os lados, mas ninguém vem. E quando o fim chegar, quem sabe se ele não será uma completa clausura involuntária? Como anunciar que tudo está se acabando se não há quem possa ouvir? Talvez, por fim, você se resigna e senta no banco. E lá irá permanecer, solitário, à espera de um transeunte. E passarão séculos. E mais quantos outros séculos passarão até que possa perceber que essa é, em verdade, sua danação.

Quando o fim chegar, poderá tudo escurecer-se, e haverá outras cores, cintilantes. Tudo cintila, num universo de dimensões e propósitos sempre discretos demais. Quando enlouquecer, quando deitar-se ao chão e cravar as unhas na terra, quem saberá? A cena é profunda, mas a luz é alva. Há gritos no céu, mas são sons sem boca. Há uma alvura angelical, mas te queima e tudo é escuro ainda.

Estamos todos à deriva, ávidos pelo contato.



9 de maio de 2013

O espelho (ou Dia de redenção)



I

Começou cedo o dia, com um bandolim tocando à porta, mas ninguém queria entrar, não. Era um desses viajantes aí, que vivem a vida como se amanhã fosse a morte. Desses aí, que festejam sem esperar que a alegria seja recompensada. Porque tem gente que é assim, né? A alegria se estampa no rosto, mas não é ela de verdade ali. É um disfarce, inconsciente, talvez, como que se o seu uso fosse atrair alguma felicidade mais... sólida. Deixemos os fingidores de lado. E os festejadores também. Em resumo, o dia começou com um bandolim tocando à porta, freneticamente, mas logo sumiu, foi seguir o caminho.

Depois, o cheiro do café. Não vinha dali, daquela cozinha, visto que, além do vivente que agora acordava, ninguém mais habitava a casa. Vinha doutras cozinhas, talvez um apartamento, da sala de espera do consultório odontológico duas casas ao lado. Da sua cozinha, não. Uma vez desperto, contudo, tratou ele também de fazer o seu próprio. Coçava a barba, o cabelo espetado, desesperançoso de um corte ou um pente que fosse, o rosto ainda abobado de sono. E o café coando.

O sol atravessava ardente as janelas da cozinha e da copa, mesmo que fossem ainda oito da manhã. Oito da manhã, oito da manhã. Em tempos não muito distantes, já estaria na lida a estas horas, conversando, trabalhando, fazendo valer a manhã. Mas não agora. Agora, pelo contrário, oito da manhã era cedo demasiado. E era estranho que o sol estivesse tão forte tão cedo. O contraste da luz com a fumaça do cigarro recém aceso tornava a imagem do cômodo densa, espessa. Dormia de blusa de frio, naquele tempo de início de inverno. O frio lhe castigava tudo, inclusive os pés. Blusa de frio e cuecas, era tudo o que costumava vestir durante as noites. Largou o cigarro no cinzeiro pra poder lavar uma xícara.

O tempo pode mudar tudo, ainda que nem mesmo um metro seja percorrido. O tempo mudara muitas coisas. Do fundo do sofá recoberto de colchas, colocadas ali mais para disfarçar o envelhecimento do móvel que pra qualquer outra coisa, ele dobrava compulsivamente as pontas das mangas da blusa azul-marinho-gasto, isso que era uma mania recém-adquirida. O ócio nos faz adquirir manias. E medos. Quando não ocupava os dedos com este artesanato infrutífero, ocupava-os na boca, a cortar as cutículas com os dentes, ou com o segurar do cigarro, da alça da xícara. Ali, no sofá, de pernas cruzadas e olhar abstraído, ainda conseguia se sentir um deus. Meio decaído, mas um deus.

Não era o fracasso que lhe preocupava. Talvez fosse, talvez, mas não dentro do que ele percebia como seu mundo de agora. Não era fracasso o nome daquilo. Era um êxtase infindável, mas que de interminável tornou-se cíclico. Como as lágrimas, como o olhar que vagueava em busca de sentidos. Sentidos. Não se tratava de morte, nem de sensações físicas. Se era morte era antes um falecimento do espírito. Sentidos. Olhar lânguido, quase bêbado. Fumaça, odores, panos velhos, sentidos. Cíclico.

O tempo se tornava cada vez mais abstrato. Podia ser medido em relógios, e havia muitos em paredes variadas, alguns fora do horário, alguns sem pilha. Podia ser medido pelas folhas do calendário da padaria, distribuído como brinde todos os finais e inícios de ano. Mas eram todas medições abstratas. Porque só se mede a passagem do tempo em situações concretizadas. Mede-se pela intensidade imprimida na vida. Não, não se conta o tempo em dias ou anos, mas em vitórias, em eras de bonança e, inevitavelmente, em períodos de desgraça. O tempo se tornava abstrato para o vivente daquela casa. E, no mais, a única coisa que lhe sobrava fazer era literatura barata.


II

Depois da tormenta, o céu limpo não veio. Foi-se-lhe a mãe, o emprego e, com este último, a promessa de uma carreira mais sólida, que parecia já conquistada e se desfez em pó. Estava perdido como cão sem dono, e o dinheiro escasseava. Ele estava preso ao passado, preso àquela casa vazia, que, com ele ali, com este novo ele, era mais vazia que se desabitada fosse. Foi tormenta caída duma só vez, e a ventania dolorosa o dobrou. Agora, mais que o dinheiro, que os laços parentais, que a rotina do trabalho levado por mais de nove anos, por pouco dez, fora-lhe embora o sentido. E com o sentido, o sono, o senso de tempo, os motivos para pensar as oito horas da manhã como meia-idade da manhã. Esvaiu-se tudo. Tinha manias agora, manias e literatura barata.

- Quem sou eu!?, bradou numa noite, desesperado, com os cabelos alvoroçados, olhos em fúria, olhando pela janela. Ele, que se perdera onde dificilmente alguém poderia o encontrar. Perdera-se em si. Apontava os braços para cima, como que se esperasse alguém para levá-lo, para mostrar algo. Ele perdera-se por completo. A dor do outro é sempre alguma coisa distante, é sempre alguma coisa sintética para nós. A depressão é como uma porta. Desavisado, invariavelmente se caminha em direção a ela. Não é convidativa, não é esclarecedora. Mas há algo de involuntário ali. A porta estabelece-se diante de ti e, duma ora para outra, é o único caminho possível.

- Quem sou eu!?, gritou novamente. Não estava mais na janela. Estava parado, sentado na beira da cama, cotovelos sobre os joelhos. Olhava conflitante o espelho, via seu próprio conflito naqueles olhos acastanhados, rebuscados, enervados.

- Quem és tu? Quem és tu, meu caro?, respondeu o espelho, falando pelo reflexo, e era como uma resposta que partia de seu interior. Ou não?

Aquela resposta, em forma de pergunta, era retórica, no mínimo. Pois que o espelho o acompanhava há quase uma década, foi comprado com seu segundo salário quando assumira o cargo de editor. O espelho, indubitavelmente, sabia de tudo. Porque grande parte de sua vida, ou ao menos dos picos dela, passou-se naquele quarto. O espelho a tudo via. E, quem sabe, por que não?, a tudo ouvia também. Era, então, uma provocação? Era um auxílio?

- Fui eu quem falou isso?

- Depende. Olhe pra mim, o que tu vês? Tu? Eu?

O homem enxergava tudo aquilo desconfiado. Cruzou as pernas sobre a cama e firmou o olhar. O reflexo o acompanhava instantaneamente em todos os movimentos.

- Não me importa realmente se fui eu ou não. Não sei quem sou e pouco tem me importado lembrar que seja meu nome.

- Porque não é mais teu nome, decerto. Ou porque, talvez, tu já estejas deteriorado nesta casa e não passes de um fluido, de um vapor condenado a vagar. Tu, não sabendo mais da própria história, a mim desabilita, e nem sei mais se reflito alguma coisa.

- Ou se sou eu mesmo o próprio reflexo, perdido sem um referente a fazer menção.

- Olhe para esta merda de vida. Esta existência medíocre que tu lutas a todos os momentos para fazer continuar. Não tens mais sentido algum, vagas pela casa, mofo!, mofo és tu, agora.

E lágrimas caiam da face dele, ainda tentando não se abater.

- Chega! Chega! Não quero mais ouvir, não quero saber de nada. De nada!

- Mas se és tu quem fala, que posso fazer? Não percebeste que te acusas, a ti, a ti mesmo? Eu não falo, jamais falei-te uma palavra sequer. Tua mente fala, e tu escutas estas vozes porque estás perdido dentro de um calabouço. Tornaste-te um febril, não consegues mais desvencilhar-te das vozes que ecoam aí. Quem és tu, quem és? Responda-me, para que eu não pense que enlouqueci e estou falando com o vento.

- Por que me mutilas assim? Por que eu te ouço ainda, demônio? Por quê? Por que eu não arrebento essa casca, essa doença, por quê?

- Por quê?

- Porque eu não sei onde estou. Por que eu não sei onde estou?! Que foi feito de meus planos juvenis, que foi feito das minhas ideias?

- Tu as perdeste. Tu te esqueces de que o tempo não para jamais, é ele quem te engole, pouco a pouco tu sucumbes a ele. Perdeste teu tempo a procurar pelo futuro e o futuro não te chegará jamais. Ou podes ainda considerar que é este o teu futuro; é isto que tu sonhavas?

Ele torcia os dedos, estalava-os nervosamente, fumava, tossia, fumava, apertava as têmporas. Chorava como uma criança a quem lhe houvessem tomado o brinquedo.

- Como te foi levada a mãe? Como passaste os últimos anos com ela? E os amigos teus, homem? Foi por incompetência que perdeste o trabalho?

- Incompetência...

- Trabalhaste por uma década para aquela porra de jornal pra não conseguires um merecimento além da demissão? Que vida ingrata.

A demissão, a mãe, os esporros, as noites sem dormir, os desgastes amorosos pela falta de horário, a mesquinhez a que fora se acometendo, as unhas amareladas, o espírito amofinado que se sobressaíra após tantos anos e que o vencera, enfim. Era agora aquele ali, escritor frustrado, solitário de si mesmo. E a solidão é um monstro que nos abraça, sem que possamos tomar ciência. Tapa-nos os olhos até que nos acostumemos e, !, parece que foi sempre assim, não? Quem, afinal, reconhece-se em si, em si somente, longe de outros e de seu próprio reflexo? Quem sabe quem é sem necessitar de limites sociais, sem se medir pela ação do outro?

Não se sabe exatamente qual foi o destino do nosso homem. Há quem diga que ele tenha se matado, embora morto já estivesse. Outros, que ele se consumiu frente ao espelho, tornando-se indistinguível de seu reflexo. O certo é que jamais saiu daquela casa.




7 de maio de 2013

Não quero mais amores


(Dedicado a três amigos)


Não quero mais amores. Amores, seus lamentos, suas dores. A paixão arrebatadora, o início, o meio sôfrego, mole, morno, e o final libertador tanto quanto aterrador. Não os quero mais, nada. Não quero ter de pensar em ninguém, não quero andar em meios-fios de alguma coisa. Não quero mais nada. Não quero mais soluços, não quero lágrimas e nem promessas. Estas muito menos.

Não quero corpos. Minto. Quero-os. Um de cada vez, talvez até dois ou mais. Mas não os idealizo, não os quero esculpidos. Quero o corpo de qualquer um, quero uma carne qualquer, natural. Que ao menos este querer e o objeto querido sejam naturais. De resto, nada mais espero. Não quero esperanças de um amor, não quero idealizar cabanas conjugais em campos verdejantes. Talvez eu queira me esfolar no mato, chafurdar no lamaçal, sujar-me de sexo, sentir o odor nauseante de uma pós-noite. Mas é só.

Estou cheio. Cheio de rancores, de dores nos pés (ah, meu Deus, só pode ser o frio, o frio de junho!), cheio de mediocridade. Estou cheio de fumaça nos pulmões também, mas desta não reclamo, ainda que um dia possa ela me levar à tumba. Problema meu. E dela. Estou repleto, estou até a tampa. E o pior? O pior é que não consigo me despejar em lágrimas, este abarrotamento não se esvai pelos olhos, nem por possíveis gritos. A minha única esperança é escrever. Redigir, revisar, ler, apreciar, desgostar e, por fim, concordar. Isto, e só, distrai-me ou, de alguma forma, recompensa-me.

O tempo corre, ainda que não o possamos ver sempre. Um ano mais, novas rugas, menos fios de cabelo, promessas a serem pagas. Sabe o que diminui minha aflição? É pensar que este ano, talvez, terei modos de cumprir a metade das minhas [promessas]. Uma porção de amigos a visitar, de lugares a conhecer, de livros a serem lidos e resenhados, mentalmente ao menos. Tenho de seguir vibrante, cuspindo flores e semeando pelo caminho. Mas não é fácil. Ainda quero meus corpos. Mesmo tendo consciência de meu fracasso como objeto do desejo. Ainda assim.

Tenho frio e é péssimo tê-lo. Quero meu rio branco, além dos corpos e das flores e da Gal. Ainda que eu não possa tê-lo como morada. Que seja ele, então, meu amante apenas, e que eu possa visitá-lo esporadicamente, sorrateiramente, com a inocência pueril da infância. Quero também que chegue uma tal manhã, e esta eu sei bem defini-la, e que com ela eu tenha esperanças renovadas de que batalhar é, por fim, compensador. Quero, sobretudo, meus sorrisos mais espontâneos de volta. E, por favor, que seja logo.


16 de março de 2013

Quando a consciência fala

É. Acho que chegamos ao fundo do poço, disse, surpreso, o espelho ao homem que o fitava com angústia.”


Vou ser sincero e te falar que não estou bem. Que digo o que vem à cabeça e isso é uma autoproteção. Vou ser direto e falar coisas que não irão agradar. Mas, afinal, quem se importa em ficar agradado? Eu penso que certas trevas crescem como hera nas paredes, e tais somos nós e nossas relações descuidadas. Mas pregaram como praga e não me vejo mais em você, e nem você me reconhece mais. Somos escuros um ao outro, temos nulidade nos olhos. Um grande vazio que suga, transformamo-nos em parasitas de nós mesmos. Um olhar, uma cartada. Fulminante.

Vou abrir o peito e dizer que não sou herói de ninguém. Mas pretendi ser, um dia, um dia que é distante agora. Vou abraçar-lhe e segredar em seus ouvidos coisas horripilantes que andei pensando. Mas é assim a vida, feita de reflexo do que imaginamos ver que, desdobrando-se de novo, é um reflexo do que pensamos que é. Mas não é, tudo é desastroso, oh, Deus!, estou encharcado de lágrimas e não as mereço. Falo de coisas grandes como a noite e tenho medo de ruídos na madrugada.

Mas a verdade, tão triste de reconhecer, é que não escurecemos as vistas. Antes, escurecemo-nos a nós, tornamo-nos um oco, vago, dilatado e recluso.



9 de março de 2013

Sua lucidez, meu espanto

"There is no great expression in this worn-out eyes."


I) Desapego

Correr, fugir, escapar.
Escapade now!

Ouvimos o sinal, distante, fatigante e tal…
Once more: escapede now! There is no other out!

Caminhar, rastejar, pular.

Deixará o dinheiro para o faxineiro, a cartola e a bola para os netos da senhora e o pão... será escondido no colchão.

Escapade! Caminhar, fugir, pular. Prosseguir e não terminar.


II) Minha lucidez no fim da linha

No horizonte, vejo o sol nascer, belo. Então, sou dominado por uma vontade, uma inquietude magnífica de sair. Começo a percorrer o caminho que primeiro alcança meus pés e o movimento de andar se torna involuntário.

Perguntar, sem ter quem responder.
Olhar, sem poder chamar alguém pra ver.
Pensar, ou pensar que pensa. Além.
Sentir, e não ter palavras para descrever.
Prender, mas não ter como trancar. Deixar escapar, sem ter como impedir.
Deixar-se dominar, sem querer ter forças para resistir. Esse é o caminho.
Falar e não parar, mesmo sem alguém para escutar.
Falar, falar até o outro os ouvidos tapar. Assim deve ser o caminho.
Saber, mas não ter a quem ensinar.
Contar, sabendo que não se chegará ao fim.
Tomar, beber. Até o cálice esvaziar.
Gritar, saltar. Chutar, empoeirar.
Sentar-se no chão, cruzar as pernas e fazer círculos com a mão.
Chamar a atenção, mesmo sabendo que não te perceberão...


III) Praça deserta

Ele caminhou até a praça deserta. Folhas secas cobriam o chão. Velhas árvores faziam uma leve sombra sobre o local. E havia um chafariz. Como ele amava brincar no chafariz.
De repente, um barco. De folhas velhas, não secas. Não mais secas. Folhas de jornal. E soprava com animação a distração, que já não era invenção.
Próximo ao chafariz, um banco de madeira velha, e que nem por isso deixara de se nobre, convidava-o a se sentar. Um breve diálogo, e o sábio centenário assento o convencera. Largou o barco. Deitado desconfortavelmente, dormiu.
Onde estava Anilór, a prima de infância, a prima de praça, de inquestionável decência? E reviveu momentos quase mortos pela memória. E o chafariz teve água de novo.
Acordou. O sol desapareceu, anoiteceu. O passeio havia acabado. Anoiteceu. Se ainda estivesse viva, Anilór já teria ido pra casa. Se ainda estivesse viva, sua mãe já teria acendido a brasa. Anoiteceu. E na escuridão do caminho, ele se perdeu.


IV) Sua lucidez, meu enigma

Algo espera por mim, não sei se é ruim. Meus olhos arregalados, meus pêlos arrepiados. Algo vela por mim, será meu pai?, será minha alma, acorrentada pelos meus pecados ilegalmente defenestrados?

É uma noite tempestuosa, estou com medo. Tremo de medo, incontrolável sentimento que expulsa lágrimas de desespero de meus olhos cansados, arregalados. Estou escorado na parede úmida, na penumbra de minha masmorra mental.
Ali, atrás do aparador de meu falecido genitor, eu sinto. Não há mais pensamento, não há mais batimento. Vejo, reconheço. Detrás do aparador, são os dedos do mal. E apontam para mim, e me chamam, e sussurram. “Estive esse tempo todo esperando por você, vem correr comigo no quintal.” Meu Deus, meu Deus, reconheço essa voz! É Anilór anunciando meu final.












































(Anteriormente publicado como Kerygma)

5 de março de 2013

Vidas nossas, líquidas



Ele calçou as botas de couro, viu pela janela o sol que se levantava, abriu e fechou a porta atrás de si. Partiu.


Há um momento de vida, mas é singelo.
Há um momento de pensamento, mas é controverso.
Há um momento de levantar as mãos para o céu, mas é comedido.
Há um momento de olhar para trás, mas é medroso.
Há um momento de olhar para o que se foi, mas provoca choro.
Há um momento de se equilibrar no meio-fio, mas é lúdico.
Há um momento de fé, mas é abstrato.

Passo sobre passo atrás de passo, ritmo e velocidade, compasso, flashes mentais, cenas interrompidas, sons aleatórios, passo sobre formiga atrás passo, uma folha seca, crec!, passo, cadarços bem amarrados.

Há um momento de sorrisos, mas é barato.
Há um momento de promessa, mas é desconfiado.
Há um momento de diversão, mas é um só momento perdido em uma escura galáxia de outras horas.
Há um momento de contestação, mas passa pois um somente não empurra o mundo.
Há um momento de conformismo, mas é ilusão pura.
Há um momento de vida, mas é disfarce.
Há um momento de dança, mas embaralhamos os pés.
Há um momento de beijos ardentes, mas era fogo na palha e consumiu-se.

Às vezes ele para num banco de praça, observa os pombos e a fonte. Mas o encanto só durará até o primeiro mendigo pedir-lhe um cigarro. Como fugir? Do que fugir?

Há um momento de egoísmo, mas é fatal ao espírito se se mantivesse.
Há um momento de braços abertos ao vento, mas é sucedido pelo cansaço.
Há um momento de sonhos realizados, mas é efêmero.
Há um momento de gargalhadas, mas é vazio como o plástico.
Há um momento de sonho, mas é sintético.
Há um momento de fuga, mas traz efeitos colaterais.
Há um momento de sobriedade, mas é insuportável.
Há um momento de vida, mas é esperança tão somente.












14 de janeiro de 2013

Redenção


(Não sei na voz de quem falo, não sei de quem é a voz por quem digo. Confuso fico. Posso estar falando de mim só, posso estar falando por uma voz que nem sei se confio. Posso estar falando por dois, posso estar falando pelo depois. Só sei que falo, despejo, intrometo sem pudores. Confuso fico, mas ainda assim prossigo.)


“Então todo o movimento cessou. E o que ficou? De uma só vez pararam as bocas, pararam as contrações, as mentes, os corações. E o que pairou? Silêncio. No calor do momento, o abraço, o alento, o contentamento. Ilusões da profusão das almas e dos vapores? Mecânicos gestos previsíveis por estarem as veias tomadas de torpor?”


E, de repente, cessou todo movimento. Em silêncio permaneceram, cada qual imerso em si, possivelmente mais profundamente do que há muito tempo já tiveram a oportunidade de estar.

E daquele silêncio, daquele cansaço que não era cansado, daquela desativação momentânea de todas as sinapses, o que se depreendia?

Todas as frustrações passadas, lavadas? Todas as luzes, fachos poderosos, apontados numa direção que é, ou fora até então, sempre tão nebulosa, conseguiam limpar de vez aquele céu? Todas as inquietações, soterradas de uma vez ou, escavadas com mãos e unhas sangrando, com força e barro, com dor e lágrimas, trazidas à tona? Nenhum sinal, nenhum passo brusco, nada se podia saber dali.

Em silêncio permaneceram. Cada qual com mãos dadas umas às outras, como que numa ciranda congelada. Mas e congelados os corações, estavam? Os segundos de uma sensação eternizam uma década. Olhos abertos olhando ora para outros, ora para o branco do gesso acima, ora para as circunvizinhanças. O que diziam? O que se permitiam?

Silêncio. Cumplicidade de sentimentos, de sensações e felicidades? O que se passava ali, naquele pedaço de tempo recortado, por vezes, e tantas, imaginado? O que trazia o fato? Cortavam-se em pedaços, esmigalhavam-se os ideais de uma felicidade comunal, de um contrato conjugal, ou, pelo inverso extremo, sentiam que havia se cumprido o que há tanto era prometido, como se o cumprir-se fosse uma confirmação de uma história (quantas vezes) idealizada?

E o que era para uma voz, era o mesmo para a outra? Talvez não fosse essa a preocupação que planava naquela áurea de paz. Talvez, por uma vez, tenha cada qual chegado ao seu êxtase, fosse por si ou pelo outro, ou por todos. Perguntavam-se aquelas vozes, em seu íntimo, o que viria depois? Poderia o pensamento chegar a tanto, ou era uma sensação de que nada importaria daqui um minuto ou daqui uma semana, nada além de agora, aquele pedaço de acalento absoluto?

E se fossem externalizadas tais pessoas, tão plurais por ora, mas, agora, tão congruentes, o que lhes viria em mente? Seriam dissonantes seus acordos, seus acordes profanos e tão sagrados?

Em silêncio permaneceram. Estavam imersos em si. Estavam imersos, também, um no outro. Mais profundamente do que, provavelmente, jamais puderam estar.

7 de janeiro de 2013

Deixa estar ou deixa mudar, tanto faz


"Não me sinto bem."



Vejo preto, tudo escuro. Vejo e não quero ver. Vejo e não tenho ânimos pra ver. Um angústia me consome, há tanto me carcome que não sou mais eu, sou ela e eu, sou mistura de neblina nos olhos e dizeres mecanizados. Isolada mente, resguardada da brutalidade da frieza ou desativada pela desnutrição de pulsares vívidos. Sou eu, de um jeito que não sou, que não quero ser.

Respeito meus limites e evito mostrar a penumbra àqueles por quem tenho apreço e profunda admiração. Estou mau, cheio de desejos que corto, um a um, com uma tesoura indigna. Como que por profundo prazer masoquista, picoto minha imaginação e restrinjo meus sonhos; esse não sou eu, embora seja ainda.

Deixa estar ou deixa mudar, tanto faz, tanto fez. Assim sigo, sem forças ou vontades nem pra bater a poeira das botas. Arrasto e faço rastro, por pura inanição. Olho sem expressão, passo os dedos na barba, consumo-me, comunico-me de verdade apenas com o cigarro e as xícaras, amigas minhas. Pseudo-lunático estou me fazendo, dia após noite. As manhãs não são tormento e não trazem alento. Nada. São manhãs, no sentido técnico perfeito. Nova virada da Terra, mecânico efeito que nos faz estar novamente expostos à luz.

Há no centro de um tornado uma presença, sentada, de olhos distantes, contemplativos. Sou eu, de joelhos nos braços, mãos cruzadas, pés no barro e calça dins de barras levemente desfiadas. Contemplo o tornado que eu mesmo criei ou, de certa forma, deixei formar-se em torno. Virá um salto, uma cambalhota, um grito, um giro?





20 de dezembro de 2012

Inaugurações


Toca o despertador, sobe pelas minhas janelas um inconfundível cheiro de diesel queimado. É uma combinação quase tão obrigatória quanto meus cafés da manhã regados a cafeína e nicotina. Sem eles, eles todos, eu não sobreviveria uma semana. Os caminhões despertam cedo, mais que eu, e iniciam sua caminhada diária; percursos, muitos, que incluem a minha basculante de vidro rachado, que com seu tremor também me arrasta, é dia, já.

É mais um dia na minha agenda, é data nova inaugurada no calendário da padaria pendurado num prego que se intromete entre dois azulejos na cozinha. Arrasto as chinelas, depois piso mais firmemente, depois já estou de porta de geladeira aberta, escolhendo várias coisas para acabar com poucas na mão. O relógio é meu ditador, e rezo todas as noites para que não o seja por toda a minha vida. O relógio é meu tutor e rege-me com tamanha disciplina que, quase sempre, penso se tal é necessária de fato. Entre ponteiros, primeiro de segundos, inofensivos ao primeiro beijo, mas depois de minutos, que avançam impiedosos, tenho de ferver a água e vertê-la sobre o pó, fazer rápido o café para poder ter ao menos alguns minutos devotos sobre minha mesa.

(Tudo é perigoso, tudo é divino, maravilhoso, diz Gal, e prossegue, Não temos tempo de temer a morte. A acepção desta falta agora é outra. Não temos também mais ideais improfanáveis e motivações viscerais para não o termos. Agora, tudo é bastante trivial. E lembro-me de Renato: Todos os dias, antes de dormir, lembro e esqueço como foi o dia. Sempre em frente, não temos tempo a perder... Nosso suor sagrado é bem mais belo que esse sangue amargo. E tão sério e selvagem!)

Sentado estou na minha cadeira, acompanhando meus pensamentos com uma profunda tragada nestes cigarros de palha que têm sido tão bons companheiros, e o outro olho na implacável soma dos minutos que me apontam os ponteiros ali na parede. Café desce rápido pela garganta, entra fumaça, entra café, sai fumaça. E nesse meio estou já com um pé do tênis calçado, amarrando o cinto, faltam cinco.

Inaugurado o dia e também suas felicidades, delicadas pois que se desfariam sob uma análise mais aprofundada. Inaugurada mais uma manhã, mais um amanhã, mais um capítulo desta busca, eterna enquanto consciente for. A promessa de alegria, por enquanto, é a chegada da noite, e seu acúmulo, a do fim de semana. Mais instigante que compreender-se satisfeito por tão pouco é pensar que neste regime vivem imensos contingentes de seres humanos, amaciados por entretenimentos perigosamente alienantes. Mas não vou falar de alienação, este é um assunto desinteressante, este é um papo chato. Quero saber da festa, da noite, da roupa, das parcelas do cartão, do limite aumentado, do consumo esperado, do novo ismartifone, da nova coleção, dos cavalos do motor do carro do ano.

Toca o despertador, tremendo já estão as peças de vidro da basculante pelos pneus prensados por toneladas, toneladas de rotinas e chateações, de preocupações e prazos. Todas transmitidas maquinalmente a mim, de um jeito ou de outro. Acordo, inebriado pela noite não mal, mas pouco dormida. O café e as outras fumaçam me fazem animar, embora pouco. Segue-se a segunda-feira, sob a imposição moralista dos ponteiros marrons, que correm ao bel prazer da pilha tamanho médio. Em minhas divagações de mesa coberta por toalha e farelos, a vaziez de uma sucessão de dias iguais, com atividades iguais e pouca ou nenhuma contribuição, nestas, para alguma mudança, ou quebra. Levanta-te, homem!, penso comigo. Faltam cinco!










3 de dezembro de 2012

Da minha sacada de arames farpados, escrevo



Não quero pulmões limpos.
Não quero dias enfadonhos.
Não quero cuecas de marca.
Não quero capitalismo selvagem.
Não quero dinheiro saltando dos bolsos.
Não quero religiosos fundamentalistas.
Não quero uma sociedade organizada por heterossexuais machistas.
Não quero carros potentes.
Não quero ostentação, tampouco exibicionismo.
Não quero demostrações de poder sobre os mais fracos.
Não quero mulheres tratadas como mercadorias.
Não quero talheres de prata.
Não quero luxo.
Não quero caviar na minha mesa.
Não quero estratificação social.
Não quero caminhonetes carregadas de alto falantes.
Não quero dinheiro por dinheiro.
Não quero uma vida saudável e opaca.
Não quero passar despercebido.
Não quero ofuscar meus semelhantes.
Não quero classe A.
Não quero as universidades públicas ocupadas pela elite.
Não quero elite.
Não quero uma juventude derrubada por drogas.
Não quero uma sociedade opressiva e desigual que, na desesperança que traz, é a causa maior da busca por uma vida entorpecida.
Não quero pessoas medindo umas às outras por suas posses e suas compras.
Não quero viver sem Gal.
Não quero estar em meio a sorrisos alienados.
Não quero capitalismo.
Não quero uma vida sem fumaça.
Não quero desperdiçar mais um dia com heterossexuais de reprodução, bem com homossexuais de futilidade inútil.
Não quero futilidade.
Não quero passar nem mesmo uma semana longe da literatura brasileira.
Não quero acordar sem café.
Não quero.







12 de novembro de 2012

Embaixador do mundo


Sou inseto. Verde, vermelho, azul, voante. Nascido do incesto. Depois das chuvas drásticas, cá estou para cobrar o que meu é de direito. Estamos juntos nessa, não tenha pressa, não tenha medo. Tudo o que eu disser, tudo o que eu zunir, assine de comum acordo, sou inseto. Eu sei das coisas. Estive à sua frente, sou embaixador do mundo. Vi por meio dos meus multi-olhos o que você não suspeita nem mesmo existir.

Sou coreógrafo, sou dançarino, sou piloto de fuga. Acompanhar-me você não consegue, saber meu próximo rumo é seu dilema, vivido de mãos espalmadas. Deprecio-te enquanto faço zumbir e retumbar seus tímpanos de humano pesado e rastejante, sou o mestre dos acordes, sou de muito antes, sou de muito antes. Onde eu me escondo não é do seu bico, meu mundo é maior que o seu, minha vida é mais provida que a sua. Sou perigoso, sou impaciente, sou o sinal da resistência. Sou pequeno, sou discreto, sou inseto. Não tenha medo, estive à sua frente.

Nada de venenos, nada de truques baratos enquanto segredo indecências do mundo em seus ouvidos. Não tente lutar comigo, sou impertinente, sou valente, sou insistente. Inseto sou, como verme que povoa seus pesadelos. Dessa grandeza que você julga ter, ainda me teme. Sou portador das suas doenças, que oportunamente não me matam. Venho de antes deste capitalismo egoísta, venho de antes das suas bombas atômicas e muito certamente permanecerei depois delas. Respeite-me, admire-me e encoraje-me. Venho de uma família mais quantitativa que a sua e nem que setuplicasse as chinas do mundo, nem que povoasse a Lua, estaria em par de confronto com meu número.

Sou musical, sou predecessor, sou clarividente, sou voante, sou manipulador, sou anestesista, sou venenoso, sou iluminante das noites. Sou embaixador do mundo.



19 de setembro de 2012

Eu, vinte e três


Sem inspiração, acendeu um cigarro. Acendeu por gostar da fumaça, não por esperar vir nela um pingo de ideia, um insight. Percorreu lentamente as paredes do quarto. Mirou no velho cinto de couro pendurado, que, dotado de fala fosse, diria Não aguento mais ficar aqui, pendurado pelo pescoço a ver o que ocorre dentro deste guarda-roupa, meses a fio. Tinha muitos cintos, ponderou, mas a verdade é que pouco os usava depois que avivara a cintura com cinco quilos a mais desde o início do ano. Deu pouca importância.

Havia há pouco feito uma pequena mudança na geografia dos móveis, precisava de uma mesa para sentar e por a cabeça a estudar um conteúdo diverso, prova à vista que tinha, e o tempo não era lá muito. Também, gostava de estudar assim, na pressão. Caso lesse com muita antecedência, acabava o conteúdo por fugir daquela cabeça que, já antes dos vinte e cinco, apresentava calvície mais ou menos avançada. Uma música tocava, música que combinava com a fumaça que passeava, livre, sobre o teclado.

Considerava fugir daquilo o mais rápido, das pressões patriarcais, da cidade já muito desbastada por ele, das mesmas faces e ruas. Pudesse ser vivida a vida assim, a cada dois anos mudando de cidade e de pessoas, mas sempre construindo amizades, deixando rastros que pudessem ser seguidos e saudade no peito, dele e dos outros. Assim que devia ser. Outras construções deviam vir, concomitantemente, pois ele se sentia inútil ao pensar que seu ponto de vista, aliado aos estudos que já fizera e à vontade de conhecer e fazer conhecer não resultassem em nada que fosse proveitoso, principalmente aos outros, portadores de menos oportunidades que ele no percurso já trilhado da existência.

Ainda sem inspiração, de cigarro já amassado no cinzeiro, resolveu que amanhã começaria a colocar as apostilas de tal prova na cabeça, custasse o que custasse. E deu-se por satisfeito por tudo que havia feito até o dia presente. Aguardassem os outros, ele seria grande ainda, mesmo que mantendo-se pequeno. E nesse embalo, adormeceu.


17 de agosto de 2012

Confissões de um tolo


"Eu, quando dei o tiro, não me lembrei de mais nada."


Eu. Pessoa nascida em um mundo de chão, terra, sangue e unhas enegrecidas de carvão. Eu, carne e fé, pessoa de verdade, com méritos no peito. Mas, quando apertei o gatilho – ingenuamente chamado por mim de botão -, destitui-me de todos esses predicados ou denominações. Porque eu preferi assim.

A mim foi negada a verdade sobre o caso, e também sobre seus desdobramentos. Muito embora me envolvessem em totalidade. Eles não sabem que eu sei. Eles provavelmente jamais saberão. Eu sei, eu sei.

Perdoe-me, eu fui um tolo. E para pagar minha culpa carreguei, nas costas, o peso que é reservado a todos que agem como eu. Somos tolos. Por nossa ingenuidade (repito a palavra, coisa que não gosto de fazer, mas não há outra), por nossa excelência em honestidade e devoção, somos tolos. A nós, nesse mundo de valores, foram destinados os castigos de levar sobre a cabeça o peso das ações dos demais em que estes atributos não figuram.

A mim, e a muitos outros que estão por aí, muito será tirado durante uma vida toda. Por saber respeitar a vontade do outro, por temer não preencher as expectativas de todos, por querer evitar sermos considerados desleais ou indesejáveis, somos tolos. Caem sobre nosso céu – que, particularmente, é muito mais azul que os demais – as trovoadas de lixos e desleixos dos outros que, não tolos, orbitam na esplêndida cobertura. Não é para nós tal maravilha.

Eles não sabem que sabemos. Nem todos sabemos, em verdade, mas à grande maioria, a quem foi destinado poder experimentar de toda sua tolice, nada pode ficar por muito tempo escurecido. Iremos descobrir e perceber como agem e como pensam de nós. Pobres são eles, pensando que, tolos, não conseguimos enxergar nada. A beleza da tolice é que, liberta, nos permite examinar todos os reflexos. Nada pode ficar despercebido.

Mas o mundo não pertence aos tolos, naturalmente. Não mais, talvez não mais há muitos e muitos tempos. Assim, deve ter sido a nós destinado um outro lugar, e de preferência que seja agraciado pelo cintilar do experimentalismo. Os não tolos, pelo que sei, imaginam saber de tais lugares, imaginam ter atingido o pico. Ora, que “tolos”, não? A serenidade de espírito – chave deste paraíso – não repousa em suas cabeças. Pobres.

Mas o mundo, este, não pertence aos tolos. A mim foi negada a verdade, a nós foi reservado um encargo injusto. Porque somos tolos. Por isso, despi-me de todos os predicados, reservei-os em um banco maciço e empoeirado. A partir daqui, regozijei-me, não serei mais conhecido por denominações ou posses. Essa dor, este peso cairá; não me lembrarei mais de nada. Eles provavelmente jamais entenderão. Foi quando apertei o botão.


27 de julho de 2012

Quinto grau


Parte Um – colapso nervoso pós-traumático

Aqui estamos sentados nessas poltronas de couro. Há pequenos cortados aqui e ali, não se importe. O tapete camurçado é cortesia da casa, mas será removido tão logo essa nossa conversa chegue ao final. Quero os detalhes de sua aventura, quero saber mais sobre o que conta como um terrível pesadelo ou um sonho de dias dourados. Por favor, deixe-nos intrometer em suas lembranças. Sim, obrigado.


Parte Dois – um plantel de perguntas

Bem, senhor Marroco, gostaria de ouvir suas palavras sem interrupção ou pausas longas demais, gostaria de poder anotar as divagações e assuntos relacionados. O que aconteceu e onde você estava? Com quem eram aquelas pessoas com que você falava? Sim, então havia um ruído impossível? Porque as pessoas estão sempre inventando coisas o tempo todo, e tal, sabe como é. Sim, eram muito brilhantes? Pois, prenderam seus pés ao chão? Hum, pois não, prossiga.

Então havia dezenas deles em um “estacionamento”. Próximos a órbita, sim. Como uma missão colonizadora. Alta rotação que transformava o concreto em suposição? Poderia ser menos... poderia ser mais, hã, claro? Sim, matéria, ondas eletromagnéticas, hum, sim. E estavam predispostos a alguma coisa? Um conluio? Acho que vamos ter de ligar um gravador, o departamento irá se interessar nessas informações. Intimidado? Não, por favor. Estamos todos entre pessoas que prezam pelo futuro próspero dessa sociedade.

Diga-nos, há algum espaçamento de tempo não explicado? Viveu isso antes, então? Hum, sim, sim. Como uma outra consciência extra-dimensional? Física... metafísica? Acho que estamos avançando um pouco rápido. Pode detalhar-nos sobre o “jogo”? Hum, sim, sim. E estava de volta à rua? Seus pertences foram deixados para trás, senhor Marroco? Um maço de cigarro, ah, sim. Perdido? Na correria? O senhor acredita que a curiosidade, sim, sua, possa ter despertado o interesse deles? Um cigarro? Jonas, tem cigarros ainda na gaveta? A primeira, debaixo da cuba. Obrigado. Podemos continuar, senhor Marroco. Não, não é preciso se exaltar. Proteção do Estado? Bem, não posso garantir, mas podemos pedir alguns recursos. O material que o senhor tem é de extremo interesse para nós.


Parte Três – instruções prévias

[Zumbido agudo, dores lancinantes e olhos fechados.] Eles irão lhe fazer várias perguntas, pode repassar tudo que viu por aqui. Entendemos que há uma certa... estranheza nisso tudo, e que atualmente a sua percepção lógica pareça estar bastante abalada. Não faça perguntas, libere sua mente, tente me entender. Nos entenderemos dessa maneira, mas preciso da sua boa vontade. Nós temos boa vontade, não queremos agressividade de sua parte. Não precisa de garantias conosco. Iremos lhe mostrar coisas além de suas crenças, gostaríamos que estivesse atento para tudo o que se passa. [Flashes intensos]


Parte Quatro – painel desconcertado

Nos parece que aquele tal Marroco ficou bastante perturbado depois do que nos relata como experiência. Mas suas respostas foram bastante instigantes. Não, não conseguimos comprovar nada, bem como não percebemos nenhuma movimentação estranha ou localizamos nenhuma “concentração” nos locais das coordenadas. É uma questão complicada, ainda não podemos dar um parecer sobre a validade das respostas. Medo? Não, não acho que essa seja a melhor expressão. Talvez uma curiosidade, uma excitação tenha se colocado sobre os agentes. Estão trabalhando da melhor forma que podem. Não, ainda não temos nada formulado. Sinceramente, não me sinto abalado. Mas uma coisa me preocupa, Alaor. A perturbação do senhor Marroco é significantemente... real, se é que entende o que eu digo.



17 de julho de 2012

Pai morto


"Em outra percepção, o tempo não é, nunca foi. Por um fio a outro, todos estamos sempre aqui, agora."



Fantástico ambiente colorido, plumas rosas e capim dourado. Ele era nosso super-herói. O carro multi veloz que risca a paisagem e nos empurra para frente, nós nos vemos no tubo de luz, no canhão de eletromagnetismo, na chapa verde do hospital. Perfeitos seres humanos.

Lágrimas geladas e face ainda gordurosa, palidez que se espalha pelo corpo jeitoso. Era jeitoso com as mulheres que passaram na sua vida, era culto para ensinar-nos o que fazer diante daquelas imensas prateleiras do supermercado. Fantástico ambiente colorido, embalagens azuis e rótulos plastificados. Carrinhos que torcem a roda e mudam nossa direção.

Pisantes colados no asfalto, ritmo de cortejo, ruas ocupadas, flores brancas e arranjos coloridos. São todos seres humanos. Também formigas e as baratas saíram dos bueiros e cortam nosso caminho, e, ali, a igreja, de porta fechada para nós. E ele deu sua face para que examinassem, e a viraram para o chão. Segredos, vergonha e copos de aspirina com conhaque. Cabelo desgrenhado às seis da manhã, o anel da mão esquerda que caiu ralo abaixo e nunca mais foi encontrado. Ele, de fato, não queria encontrá-lo jamais. Era nosso super-herói.

Sofá que nos traga como a um cigarro e, depois, expele-nos. Agora, somos como fumaça. Espalhamo-nos contra o vidro, nos dissolvemos no chão. Nas paredes, seus antigos quadros de Pink Floyd brancos, pretos e com raios arcoirizados transpassantes. O homem com fogo na cabeça. Formatos divergentes como nós, cada um espalhado por um canto, por uma vida. A vida gerada de um só. E agora, quando a dele se foi, estamos nós reunidos de novo. Com lágrimas nas mãos e glotes fechadas, paletós pretos e sapatos feios. Como seres humanos que somos.

E agora, para onde vamos?



13 de julho de 2012

Do outro lado do horizonte, depois daqueles morros verdes


É noite e estou em meu quarto, sozinho. É noite, e o medo me distrai. É noite sozinha em meu quarto, é noite neste meu quarto sozinho. É noite.


Era noite naquela época, naqueles dias frios, quando eu apertava a mão contra o parapeito da janela azul. Era noite naqueles dias de inverno, quando tudo era incerto. Vivíamos em uma era de desertificação sentimental. Era eu mais Eu do que agora? O que fez? Para onde foram levados os sonhos juvenis?


Parte I

“Eu sei que estou andando aqui mais de uma vez. Parece que o sol já se pôs assim, não parece, Alfredo? Eu lembro de ter calcado essa pedra no peito do pé, era assim, exatamente assim... Não faz muito sentido...”

O que sabemos do tempo, ou do universo, ou o que sabemos de Deus, ou de deus, acho que é muito pouco ainda – ele falava, sozinho, enquanto percorria o dedo na superfície verde das folhas. Alfredo estava muito mais distante – de si e dele – durante essas indagações, e nenhuma resposta seria ouvida. Sua atenção foi desviada para umas borbulhas formadas na superfície estagnada daquela poça de água barrenta no meio do caminho. Tão simples quanto uma bolha, tão indefinido quanto o que chegava aos seus olhos quando a noite caía. Aquele tanto de pontos luminosos.


Parte II

De certa forma, o que era ontem permanece hoje. As dúvidas, no fundo, são as mesmas, embora se apresentem em nova roupagem. Ele permanece no mesmo ponto, observando as matas que se delineiam no horizonte longínquo. Os anos passaram mas as respostas não vieram. Virão um dia?

De onde estão seus pés agora, várias linhas saem e se esticam em rumos diferentes. Alguns são retos, outros tortuosos. Mas todos vão para lugares não abarcados pela visão. O fim de alguns é imprevisível porque há uma curva no caminho, o de outros porque se embrenham em construções diferenciadas. O fato é que ele sabe que vai ter de escolher algum dos caminhos. Contudo, quanto mais se anda, mais distante um se torna do outro. E se, depois da curva, depois da porta, depois da mata embrenhada, não se chegar aonde era esperado?


Parte III

[resultado desconhecido: o horizonte, por mais que se tente alcançá-lo, sempre estará a mais um passo.]





31 de maio de 2012

Era uma vez, num vale de sombras


“Uma noite destas, não saberás quando nem onde, a vida te pega.”


É aqui que eles falaram de desespero. Mas não sabiam o que invocavam. É aqui que se cortaram línguas, que se perderam almas, que deceparam mãos e pés. Neste vale de sombras, os pecadores foram exterminados um a um. Eu não clamo por misericórdia. A justiça para mim é um sonho inacabado.

Desejos grandes, braços compridos que acabaram me envolvendo como uma camisa de força. Perdi os fios de cabelo esperando pelo dia em que um sorriso verdadeiro brotaria no lugar. Escavei, repus, abracei o problema. O tempo, esse castigo, acaba se tornando assim, insuportavelmente lento, esticando para além da conta do aceitável a existência medíocre.

Eu estou de mãos estendidas, estou com olhar vívido; viro-me para os lados, estou gritando por olhos que me observem.

Quando as ruas de asfalto ainda me traziam para uma casa, quando após o dia ingrato de despejo de energias em atividades laborais, o mito eterno do trabalho, quando tudo isso ainda me reconhecia como vivente de um cotidiano, eu elevava a face com um pouco de dignidade. Mas tudo passa, e, quando você apenas rasteja, o que um dia você ajudou a erguer agora apenas te reconhecerá como sedimento, base esmagada para a elevação de outrem.

Eu estou de punho cerrado, protejo minha face dos tapas, estou gritando por ouvidos que queiram me ouvir.

Quando havia ainda olhos eu enxergava como a vida se trazia, como as pessoas se vestiam, como os valores eram atribuídos, do modo que, ao contrário, jamais seriam recíprocos. O anel com que o noivo presenteia jamais precisaria da mão da dama para sua existência, é absoluto em si. E, enquanto se passaram as décadas, passeando diariamente ou preso na caixinha de veludo, ele presenciou as ridículas façanhas humanas, seu desespero para conter as marcas do tempo, que outros, sábios, compreenderiam como evolução, desenvolvimento. E quando ruiu o casamento, o mesmo anel estava ali, afogado em risadas, igualmente absoluto, consciente de que ele, sim, entraria eternidade adentro.

Os desejos ardentes me queimaram e transformaram meus lábios em um rastro de ferimentos tristonhos. Os braços longos que usei para abraçar meus ideais me envolveram como a serpente, prendendo-me nesta imobilização, este casulo de mim mesmo, amarrado. Neste vale de pecadores, a justiça é uma misericórdia perecível.

Enquanto faço círculos na areia, assisto o arraste da multidão, o furor por uma trivialidade efêmera. Ergo minha face, procuro algum olhar perdido, disposto a compreender. Sussurro, mas eles não ouvem. É aqui que eles falam de desespero. Mas não sabem o que invocam.